Educación Física y Ciencia, vol. 28, núm. 3, e362, octubre-diciembre 2026. ISSN 2314-2561Artículos
Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul (CERGS): constituição histórica de um evento esportivo da rede privada de ensino sul-rio-grandense (2011-2026)
Resumo: A pesquisa tem por objetivo compreender o processo de composição histórica do Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul (CERGS) e as interfaces estabelecidas com outros eventos esportivos escolares realizados no âmbito estadual e nacional, no período compreendido entre os anos de 2011 e 2026. Para tanto, determinamos a História Cultural enquanto matriz teórica e metodológica da investigação. A fim de acessarmos fragmentos do passado acerca do CERGS, a obtenção e produção das informações ocorreram por meio de fontes documentais, fontes digitais e de fontes orais produzidas por entrevistas de História Oral. Após a interpretação das fontes acessadas, constatamos que o CERGS foi implementado no cenário esportivo estudantil do Rio Grande do Sul no ano de 2011, pela Fundação de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul, ano que delimita o recorte temporal inicial deste estudo. Inicialmente, a promoção desse evento teve a finalidade de suprir demandas anteriormente identificadas quanto à participação de escolas privadas nos jogos escolares nacionais, naquela época denominada Olimpíadas Escolares.
Palavras-chave: Jogos Escolares, Competição Esportiva, Educação Física Escolar, Esporte Extracurricular, História do Esporte.
Rio Grande do Sul Student Championship (CERGS): Historical evolution of a sporting event in the Rio Grande do Sul private education network (2011-2026)
Abstract: The research aims to understand the historical development of the Rio Grande do Sul Student Championship (Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul, CERGS) and its interrelationships with other school sporting events held at state and national levels, in the period between the years 2011 and 2026. To this end, we have adopted Cultural History as the theoretical and methodological framework for this research. To access fragments of the past related to the CERGS, data collection and analysis were conducted using documentary sources, digital sources and oral sources produced by Oral History interviews. After interpreting the sources consulted, it was found that CERGS was introduced into the student sports landscape of Rio Grande do Sul in 2011, by the Rio Grande do Sul State Sports and Leisure Foundation (Fundação de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul), a year that marks the starting point of this study. Initially, the promotion of this event aimed to address previously identified demands regarding the participation of private schools in national school games, known at that time as School Olympics (Olimpíadas Escolares).
Keywords: School Games, Sports Competition, Physical Education at School, Extracurricular Sport, History of Sports.
Campeonato Estudiantil de Río Grande del Sur (CERGS): evolución histórica de un evento deportivo de la red de enseñanza privada de Río Grande del Sur (2011-2026)
Resumen: El objetivo de esta investigación es la comprensión del proceso de formación histórica del Campeonato Estudiantil de Rio Grande do Sul (CERGS) y las interrelaciones establecidas con otros eventos deportivos escolares celebrados a nivel estatal y nacional, en el periodo comprendido entre los años 2011 y 2026. Para ello, hemos adoptado la Historia Cultural como marco teórico y metodológico de la investigación. Para acceder a fragmentos del pasado relacionados con el CERGS, la obtención y el tratamiento de la información se llevaron a cabo mediante fuentes documentales, fuentes digitales y fuentes orales obtenidas a través de entrevistas de Historia Oral. Tras la interpretación de las fuentes consultadas, constatamos que el CERGS fue implantado en el panorama deportivo escolar de Rio Grande do Sul en el año 2011 por la Fundación de Deporte y Ocio del Estado de Rio Grande do Sul, año que delimita el marco temporal inicial de este estudio. Inicialmente, la promoción de este evento tenía como objetivo satisfacer las demandas previamente identificadas sobre la participación de escuelas privadas en los juegos escolares nacionales, denominados en aquella época Olimpíadas Escolares.
Palabras clave: Juegos escolares, Competición deportiva, Educación física escolar, Deporte extracurricular, Historia del deporte.
Introdução
O estado do Rio Grande do Sul possui uma tradição em competições esportivas desenvolvidas no interior de instituições escolares. Desde a década de 1970, crianças e adolescentes de diferentes regiões do estado e redes de ensino participam de eventos esportivos estaduais que, além de constituírem-se enquanto patrimônio cultural do Rio Grande do Sul e possuírem suas próprias representações culturais, também são considerados passaportes para o cenário esportivo nacional. Após serem classificadas nos respectivos jogos estudantis estaduais, diferentes unidades federativas do país se reúnem no maior evento esportivo-educacional realizado no Brasil, o qual compreende delegações formadas por estudantes/atletas de diversas modalidades esportivas. Além do caráter pedagógico e formativo, estes eventos se caracterizam enquanto fluxo de acesso a um evento de maior magnitude.
De acordo com Silva Júnior et al. (2016), os jogos realizados no interior de instituições escolares caracterizam-se enquanto eventos pedagógicos e educacionais de grande relevância social para a comunidade estudantil. Além de propagar a competição, os mesmos proporcionam a aprendizagem dos agentes envolvidos em diferentes instâncias, transcendendo competências e habilidades relacionadas ao esporte. O legado esportivo traz benefícios ao ambiente educacional, quando o mesmo tem o objetivo de contribuir com a formação do indivíduo e com o processo de aprendizagem e desenvolvimento integral do estudante enquanto ser humano (Silva Júnior et al., 2016).
Para Moreira e Pereira (2014), o esporte configura-se enquanto agente de educação, podendo este contribuir para o processo de formação social e humana dos que dele fazem uso, seja a partir de projetos esportivos ou mesmo de sua prática em diversos setores de atividades. Em sua manifestação educacional, o esporte oportuniza que indivíduos possam vivenciar uma apropriação de cultura, possibilitando que estes ampliem suas relações culturais, sociais, emocionais e cognitivas (Moreira e Pereira, 2014). Da mesma forma, isso se aplica ao esporte manifestado em eventos esportivos realizados no contexto escolar, o qual propicia a formação integral do sujeito que dele se apropria e o transforma, em uma relação de reciprocidade constante.
De acordo com o regulamento mais recente do Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul, uma das finalidades e justificativas acerca de sua promoção por parte do Poder Executivo do Estado do Rio Grande do Sul por ele responsável atualmente está fundamentada no ideal de “educar o jovem através da prática desportiva escolar [...], difundindo e reforçando a construção da cidadania e os ideais do movimento olímpico, estes direcionados para a construção de um mundo melhor e mais pacífico” (Secretaria do Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul, 2026, p. 1). Tal perspectiva vai ao encontro dos ideais de esporte referenciados pelos autores acima citados, uma vez que, através das atividades desportivas escolares, crianças e jovens socializam e desenvolvem um intercâmbio sociocultural, em um processo mútuo de formação integral do sujeito para viver em sociedade.
Até meados da década de 1990, estudantes da rede pública e privada do Rio Grande do Sul participavam de um único evento escolar, o qual congregava instituições de ambas as redes de ensino: os Jogos Escolares do Rio Grande do Sul (JERGS). Decorridos 25 anos desde a primeira edição dos JERGS, implementado no estado em 1970, uma expressiva mudança alterou suas conformações históricas, quando a comissão organizadora do evento determinou que estudantes de instituições da rede privada de ensino do Rio Grande do Sul não poderiam mais participar dos jogos. Por conseguinte, a partir da edição de 1996, o evento passa a destinar-se exclusivamente a estudantes matriculados na rede pública do estado (Oliveira, 2023).
Com o intuito de suprir lacunas deixadas pelos JERGS acerca da participação de escolas privadas em jogos escolares estaduais, no ano de 2011, um novo evento foi implementado por um órgão público do estado, sendo este destinado, majoritariamente, a estudantes de instituições privadas de ensino do Rio Grande do Sul: o Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul (CERGS). Inicialmente, o CERGS era promovido pela Fundação de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul (FUNDERGS), e contava com o apoio das instituições de ensino e de federações esportivas do estado. O evento tinha como finalidade contemplar estudantes de escolas privadas em modalidades coletivas e individuais, além de possibilitar a integração com escolas públicas em algumas práticas esportivas individuais (Fundação de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul, 2012; Schneider, 2016).
Após classificar os vencedores estudantis do Rio Grande do Sul em diferentes modalidades esportivas, os órgãos responsáveis pelo CERGS e pelos JERGS, ainda, promoviam uma seletiva final. Essa etapa consiste em um confronto entre os vencedores de ambos os eventos em modalidades afins, com o objetivo de compor a delegação do Rio Grande do Sul para participar dos jogos escolares de nível nacional. Ressalta-se que tanto o CERGS quanto os JERGS devem estar em consonância com o evento nacional, tendo em vista que estes pré-selecionam seus estudantes e equipes do Rio Grande do Sul para representar o estado no principal evento esportivo escolar do Brasil.
Mediante tais ponderações iniciais, essa pesquisa tem por objetivo compreender o processo de composição histórica do Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul (CERGS) e as interfaces estabelecidas com outros eventos esportivos escolares realizados no âmbito estadual e nacional, no período compreendido entre os anos de 2011 e 2026. O recorte temporal deste estudo compreende o ano da primeira edição do evento (2011) até sua edição mais atual (2026).
A realização desta pesquisa se justifica na medida em que busca compreender o universo dos jogos escolares e suas interfaces, tema bastante debatido pela produção científica da área, sob diferentes perspectivas e desenhos teórico-metodológicos. Todavia, na revisão de literatura realizada previamente acerca desta temática, não foram localizados estudos que tenham por objetivo principal investigar o CERGS propriamente dito e suas conformações históricas, sendo este um evento escolar integrante da cultura esportiva sul-rio-grandense. Tal lacuna reforça a relevância deste estudo e, ao mesmo tempo, justifica sua realização. Nessa perspectiva, buscamos preservar a história e memória esportiva deste evento escolar, bem como preencher a lacuna evidenciada na literatura científica da área acerca de nosso objeto de pesquisa.
Referencial Teórico-Metodológico
Para alcançar o objetivo traçado, determinamos a História Cultural enquanto matriz teórica e metodológica da investigação. Com o intuito de construir uma narrativa historiográfica sobre o CERGS e suas interfaces com outros eventos esportivos escolares para estudantes/atletas, orientamo-nos nos referenciais de práticas e representações culturais (Barros, 2004; Burke, 2008; Chartier, 2000; Pesavento, 2004). A História Cultural se apresenta como uma corrente historiográfica que aborda a história em uma perspectiva cultural. Essa matriz teórica visa reconstituir as representações que os homens constroem sobre o passado para explicar o mundo em que vivem e atribuir significado ao real (Pesavento, 2008).
Para acessar o passado acerca das conformações históricas do CERGS, coletamos informações por meio de fontes documentais (Pimentel, 2001), fontes digitais (Brasil e Nascimento, 2020) e fontes orais (Alberti, 2008; Ferreira e Amado, 2006). No que se refere às fontes documentais, compuseram o corpus documental da pesquisa os regulamentos oficiais do CERGS, obtidos a partir de uma busca realizada no Google, utilizando a descrição “regulamento CERGS” acompanhada do ano de cada edição. Após essa busca inicial, localizamos os regulamentos referentes à edição de 2012 e às edições de 2014 a 2026. O regulamento referente às edições de 2011 e de 2013 não foram localizados. De acordo com os agentes entrevistados para a realização deste estudo, a primeira edição do CERGS ocorreu no ano de 2011, todavia, há a probabilidade de esta edição ter ocorrido em um formato mais restrito, sem um regulamento integralmente elaborado pela comissão organizadora do evento.
A utilização dos regulamentos do CERGS justifica-se pelo fato de eles descreverem a estrutura e organização do evento. Por meio do regulamento geral do CERGS, por exemplo, torna-se possível identificar desde a finalidade e objetivos da competição até aspectos relativos às inscrições, premiação e arbitragem. Já em seu regulamento específico, estão descritas as principais regras e normas de cada uma das modalidades esportivas oferecidas aos participantes.
Também, foram coletadas fontes digitais sobre o CERGS, compostas por notícias veiculadas no site virtual da SEL.1 Tais fontes são compostas por textos e, por vezes, fotografias ilustrativas que abordam questões relativas ao CERGS, desde suas etapas de realização em cada edição, até as modalidades ofertadas e municípios participantes. As notícias foram lidas na íntegra e agrupadas de acordo com o assunto abordado e com a edição do evento a qual se refere, para posterior análise e interpretação de suas informações.
Além das fontes documentais e digitais acima referenciadas, coletamos informações sobre nosso objeto de estudo por meio de fontes orais, provenientes de entrevistas de História Oral. Enquanto uma metodologia de composição de fontes históricas, Alberti (2008, p. 155) afirma que a História Oral “permite o registro de testemunhos e o acesso a “histórias dentro da história” e, dessa forma, amplia as possibilidades de interpretação do passado”. Com esse método historiográfico, o pesquisador produz seu próprio material de investigação a partir de testemunhos orais coletados por meio de entrevistas (Barros, 2004).
Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com dois sujeitos envolvidos com o CERGS, conforme o Quadro 1. O primeiro agente atuou enquanto coordenador do evento durante o período de sua constituição e implementação, portanto, esteve diretamente envolvido em seu processo de composição histórica. Para além deste, optamos por entrevistar a coordenadora dos JERGS em virtude de este evento possuir uma estreita relação com o CERGS, tanto no que se refere ao cenário estudantil sul-rio-grandense, quanto à seleção de estudantes/atletas que compõem a delegação do Rio Grande do Sul nos jogos escolares nacionais.
| Nome | Relação com o CERGS ou JERGS |
| Pedro Paulo da Silva Guimarães | Coordenador do CERGS entre os anos de 2011 e 2014. |
| Danusa Elena Zanella | Coordenadora dos JERGS de 2009 a 2010 e, posteriormente, de 2015 até as edições atuais. |
Ambas as entrevistas foram realizadas no segundo semestre de 2021 e, posteriormente, transcritas e analisadas no ano de 2022. Devido à pandemia de COVID-19 e dos decretos e recomendações de isolamento social instaurado durante o período de sua execução, as entrevistas foram realizadas em formato virtual e em tempo real. Para tanto, empregamos as orientações do Ministério da Saúde, no que tange aos procedimentos adotados em pesquisas com seres humanos em ambientes virtuais: contato com os participantes, termos éticos, confidencialidade da identidade e do contato dos participantes, possíveis limitações e riscos do estudo, e segurança na transferência e no armazenamento das informações coletadas (Brasil, 2021).
Para a elaboração das entrevistas semiestruturadas, utilizamos roteiros compostos por temas geradores e suas respectivas perguntas. Os temas abordaram questões relativas às memórias dos agentes sobre a história do CERGS e sobre suas participações e/ou relação com o evento. Cada entrevista teve duração média de uma hora, sendo gravada e, posteriormente, transcrita. A transcrição das entrevistas na íntegra foi enviada aos sujeitos entrevistados para possíveis ajustes e/ou correções de seus depoimentos orais. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob o parecer número 4.873.072. Antes da realização da entrevista, os participantes assinaram os termos éticos necessários à pesquisa quando esta envolve seres humanos.
Quanto à interpretação das informações, no que se refere às fontes documentais e digitais, a opção metodológica adotada para a interpretação dos documentos coletados foi a Análise Documental (Bacellar, 2008; Pimentel, 2001), com base nos seguintes procedimentos: fichamento, classificação, análise e cruzamento das informações. Quanto às fontes orais coletadas através das entrevistas, adotamos os procedimentos apresentados por Flick (2009), relativos à Análise Temática de Conteúdo. Após a transcrição das entrevistas, aplicamos as técnicas de codificação temática e de categorização. Na codificação temática, fizemos uma análise individual e aprofundada de cada um dos depoimentos orais prestados pelos entrevistados. Após analisar as entrevistas e elaborar categorias, procedemos ao cruzamento das informações reunidas. Desse cruzamento, estabelecemos uma estrutura temática que sustentou a análise das fontes orais, o que ampliou a comparabilidade entre as versões dos depoimentos e entre os significados por eles atribuídos.
Precedentes sobre o esporte escolar no Rio Grande do Sul
Durante a década de 1970, um grupo de profissionais que atuavam no então denominado Departamento de Educação Física e Desportos (DED), da Secretaria da Educação e Cultura do Rio Grande do Sul (SEC), elaborou um projeto esportivo para suprir demandas culturais, sociais e políticas da época, voltado, sobretudo, às instituições escolares do estado do Rio Grande do Sul. O projeto tinha por objetivo principal desenvolver um evento escolar de nível estadual que congregasse estudantes de todo o estado em uma única competição multiesportiva, cuja duração perdurasse grande parte do ano letivo (Oliveira, 2023). Como resultado do trabalho coletivo realizado no DED/SEC, o projeto se concretizou no Campeonato Estudantil Gaúcho (CEG), cuja primeira edição foi realizada no ano de 1970.
Na década seguinte, mais precisamente no ano de 1986, o CEG passa a se chamar Jogos Escolares do Rio Grande do Sul (JERGS), denominação que permanece até os dias atuais, sendo este promovido pela Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul (SEDUC) (Oliveira e Mazo, 2023). Até meados da década de 1990, os JERGS eram destinados tanto para as instituições da rede pública quanto da rede privada de ensino do Rio Grande do Sul. Passado mais de duas décadas desde a implementação do CEG/JERGS, uma expressiva mudança reconfigurou o evento, quando, no ano de 1996, a comissão organizadora determinou que instituições privadas fossem suprimidas das competições e os JERGS destinados exclusivamente a estudantes matriculados na rede pública de ensino do estado (Oliveira e Mazo, 2024).
Desde a realização de suas primeiras edições, após selecionar estudantes em diferentes modalidades por meio do CEG e, posteriormente, dos JERGS, o estado do Rio Grande do Sul participa dos jogos escolares nacionais, cuja primeira denominação foi Jogos Estudantis Brasileiros (JEBs). Após anos de tradição selecionando estudantes para os JEBs, a comissão organizadora dos JERGS retirou-se do cenário nacional no ano de 2006. Nessa época, o coordenador geral dos JERGS era o professor Carlos Guilherme Pinheiro, cuja função foi desempenhada entre os anos de 2003 e 2009 na SEDUC.
Com a aposentadoria de Carlos Pinheiro, no ano de 2009, a professora Danusa Elena Zanella assumiu a comissão organizadora dos JERGS, ocupando a posição de coordenadora geral do evento. Em seu primeiro ano desempenhando a referida função junto à SEDUC, Danusa Zanella, juntamente com sua equipe de trabalho, protagonizou o retorno do Rio Grande do Sul nos jogos escolares nacionais, na então denominada Olimpíadas Escolares2 (Zanella, 2021). Segundo Arantes et al. (2012), no ano de 2009, a organização das Olimpíadas Escolares estava sob responsabilidade do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e contou com o apoio do Ministério do Esporte.
Ao reportar-se à época em que o Rio Grande do Sul teve a participação de sua delegação suspensa nos jogos escolares nacionais, Zanella (2021) relata que o COB era a entidade responsável por financiar o pagamento das passagens aos estudantes e professores(as) selecionados(as) por seus respectivos estados para representá-los no evento nacional. Depois de um período cumprindo com seus deveres orçamentários, o órgão responsável pela organização e execução do evento nacional, o COB, suspendeu o pagamento das passagens às unidades federativas do país (Zanella, 2021).
Frente a esta nova condição, os gestores e autoridades responsáveis pelo aporte financeiro e participação do Rio Grande do Sul nas Olímpiadas Escolares decidiram suspender esse vínculo esportivo. Assim, ao final de cada ano letivo, entre os anos de 2006 e 2008, estudantes do Rio Grande do Sul encerravam suas participações em eventos esportivos com a etapa final estadual dos JERGS. Ao conhecer os vencedores nas modalidades esportivas ofertadas, o estudante retornaria ao âmbito esportivo extracurricular somente no ano seguinte, por meio da etapa municipal dos JERGS (Zanella, 2021).
Logo após cada estado brasileiro compor sua delegação, esperava-se que o COB arcasse com 75% das despesas de locomoção até Brasília/DF, cidade sede das Olimpíadas Escolares naquela época. Contudo, o respectivo órgão alegou que os recursos destinados a esta finalidade, provenientes da Lei Agnelo-Piva,3 eram insuficientes para essas despesas. Frente a tais informações, acreditamos que este tenha sido o principal motivo para o afastamento do Rio Grande do Sul nos jogos escolares nacionais entre os anos de 2006 e 2008.
Corroborando com as informações coletadas no depoimento de Zanella (2021), o estudo de Kiouranis (2017) traz indícios históricos sobre a participação e resultados esportivos das 27 unidades federativas nos jogos escolares de nível nacional, fazendo uma comparação entre a edição de 1981 e o período de 2005 a 2014. De acordo com os resultados apresentados, no ano de 1981, o estado do Rio Grande do Sul ocupou a terceira colocação no ranking geral do evento, com um total de 66 medalhas conquistadas na referida edição, somente abaixo de São Paulo (152 medalhas) e do Rio de Janeiro (106 medalhas). Já nas edições mais recentes, de 2005 a 2014, o Rio Grande do Sul perdeu representatividade no pódio, caindo para a 10ª posição no que diz respeito à conquista de medalhas.
Dentre as justificativas para a queda de resultados do Rio Grande do Sul, Kiouranis (2017) aponta para a ausência do estado nas edições de 2006, 2007 e 2008 nas Olimpíadas Escolares. Além do Rio Grande do Sul, o estado de Goiás também não participou do evento nacional neste período, podendo (ou não) ser pela mesma justificativa do Rio Grande do Sul: o não auxílio no pagamento das passagens aos estudantes e professores(as) para participar das Olimpíadas Escolares. Cabe lembrar que o COB recebia 2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais do país para pagamento de despesas, incluindo aquelas relativas ao esporte escolar (Brasil, 2001).
De acordo com Zanella (2021), no ano de 2009, o secretário estadual da educação naquela oportunidade, Ervino Deon, juntamente com o secretário adjunto da educação, Paulo Ricardo Rezende, iniciou um movimento em prol do retorno do Rio Grande do Sul às Olimpíadas Escolares. Nesta competição nacional, poderiam participar tanto escolas públicas quanto escolas privadas de todos os estados brasileiros. Contudo, devido aos recursos orçamentários destinados a execução dos JERGS, a SEDUC poderia dar aporte financeiro somente a estudantes e professores(as) de instituições públicas, sendo elas municipais, estaduais e federais. Logo, escolas particulares não teriam a oportunidade de participar das Olimpíadas Escolares.
Segundo Schneider (2016), os JERGS são uma política pública de governo, não constituída por lei. Para sua execução anual, a SEDUC conta com recursos provenientes do Salário-Educação, sendo este uma contribuição arrecadada pela União e distribuída aos estados brasileiros. O Salário-Educação foi instituído no ano de 1964, por meio da Lei nº 4.440, sendo uma contribuição social destinada ao financiamento de programas, projetos e ações voltados à educação básica (Brasil, 2010). Cabe esclarecer que os recursos do Salário-Educação são redistribuídos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). A cota estadual e municipal da contribuição social do Salário-Educação é integralmente redistribuída entre os estados e seus municípios, de forma proporcional ao número de estudantes matriculados na educação básica das respectivas redes de ensino. Assim sendo, o Salário-Educação, por lei, não poderia ser utilizado com fins destinados a instituições particulares de ensino.
Após resolver o impasse quanto ao retorno do Rio Grande do Sul aos jogos escolares nacionais, um novo obstáculo se apresentava à SEDUC. O evento nacional previa a participação de escolas de ambas as redes de ensino (pública e privada) e, não havendo, na época, um evento estadual promovido às escolas particulares, estudantes desta rede de ensino estariam sendo banidos de experiências educacionais e esportivas em âmbito nacional. Diante de tal situação, se fazia necessário organizar um evento estadual que oportunizasse as escolas da rede privada do Rio Grande do Sul participar das Olimpíadas Escolares.
Processo de composição histórica do CERGS e suas primeiras edições
Para sanar a nova demanda, a comissão organizadora dos JERGS compareceu ao Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (SINEPE/RS) para verificar a possibilidade de esta instituição organizar e promover um evento esportivo escolar destinado exclusivamente às escolas privadas do estado, a fim de selecionar estudantes para disputar vagas nas Olimpíadas Escolares. Não houve um retorno positivo do SINEPE/RS, então a equipe de trabalho responsável pela organização dos JERGS utilizou um evento esportivo que já era realizado no Rio Grande do Sul e que, de certa forma, abrangia um número expressivo de escolas privadas do estado: a Copa Paquetá (Zanella, 2021). A Copa Paquetá era um campeonato esportivo independente, organizado por pessoas físicas desde o ano de 1989 no Rio Grande do Sul, e contava com o apoio e patrocínio de uma empresa do ramo de materiais esportivos, as Lojas Paquetá (Myskiw, 2012).
Segundo informações provenientes do depoimento de Zanella (2021), as modalidades esportivas ofertadas no evento eram bastante similares àquelas presentes nos JERGS. Desde então, a SEDUC passou a utilizar os resultados das escolas privadas participantes da Copa Paquetá para, posteriormente, realizarem o “cruzamento” entre as equipes vencedoras das escolas públicas (JERGS) e as equipes vencedoras das escolas privadas (Copa Paquetá), cuja denominação passou a ser “seletiva final”. Na seletiva final eram selecionadas equipes (modalidades coletivas) e estudantes (modalidades individuais) para compor a delegação do Rio Grande do Sul e representar o estado nas Olimpíadas Escolares nacionais.
Na edição seguinte ao retorno do Rio Grande do Sul no evento nacional, no ano de 2010, a delegação sul-rio-grandense foi formada por 127 estudantes de ambas as redes de ensino, representando 45 escolas, sendo 28 públicas e 17 privadas. Das 12 modalidades disputadas nas Olimpíadas Escolares de 2010, a delegação sul-rio-grandense competiu em 11 modalidades, não tendo participantes somente no ciclismo. Nesta edição, o evento ocorreu na cidade de Goiânia/GO, no mês de dezembro de 2010 (Rio Grande do Sul, 2010).
Em um primeiro momento, utilizar os resultados da Copa Paquetá ajudou a resolver as demandas imediatas identificadas pela SEDUC, contudo, não foi o suficiente. Isso porque a Copa Paquetá não abrangia os municípios do interior do estado. O evento compreendia, basicamente, a região metropolitana do Rio Grande do Sul. Regiões mais distantes da capital Porto Alegre/RS não eram contempladas pela Copa Paquetá, devido à inacessibilidade por parte de seus competidores. Consequentemente, equipes escolares destas regiões não teriam a mesma oportunidade e condições de compor a delegação do Rio Grande do Sul nas Olimpíadas Escolares (Guimarães, 2021).
Ao se deparar com essa desigualdade, ponderou-se sobre a possibilidade de implementação de um evento esportivo destinado exclusivamente às instituições de ensino privado do Rio Grande do Sul que contemplasse um maior número de municípios do estado e que não fosse restrito à região metropolitana. Logo, no ano de 2011, foi organizado o Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul (CERGS). De acordo com o professor Pedro Paulo Guimarães (2021), um dos agentes que esteve à frente da criação do CERGS, o evento foi implementado para garantir a participação de escolas privadas nas Olimpíadas Escolares, de forma mais justa e heterogênea.
As primeiras iniciativas para a idealização do CERGS foram demarcadas pela promoção de uma conferência estadual. Por meio desta ação, a comissão organizadora do CERGS propôs um levantamento de sugestões para estabelecer o formato e estrutura inicial de uma competição estadual que suprisse as demandas anteriormente identificadas pela SEDUC. Na conferência, além da comissão organizadora, participaram professores(as) e colaboradores(as) de todas as regiões do estado (Guimarães, 2021).
Segundo o estudo de Schneider (2016), a primeira edição do CERGS ocorreu oficialmente após seu Congresso Técnico, promovido no auditório do Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), na cidade de Porto Alegre/RS. Nesta oportunidade, participaram estudantes do ensino médio de escolas privadas do estado. Na ocasião, os(as) professores(as)/treinadores(as) das equipes conheceram o regulamento do evento e participaram do sorteio que definiu as chaves de cada modalidade esportiva da primeira edição do CERGS (Schneider, 2016).
No que diz respeito às etapas do CERGS em suas primeiras edições, o evento foi organizado da seguinte forma: para as modalidades coletivas, foram realizadas etapas regional e estadual; já para as modalidades individuais, somente etapa estadual. Para a execução da etapa regional, o estado do Rio Grande do Sul foi dividido em oito regiões, de acordo com a proximidade territorial de cada município. Ao rememorar o período em que o CERGS foi estruturado, Guimarães (2021) relata que a estrutura inicial do evento acompanhou o modelo que já vinha sendo utilizado pelos JERGS, desde a divisão do estado para a execução da etapa regional até outros componentes presentes no regulamento.
A intenção da comissão organizadora do CERGS, desde o início do processo, era trilhar um percurso junto à SEDUC, mediante uma parceria em prol do esporte escolar sul-rio-grandense. Como, ao final do processo, um dos objetivos dos JERGS e do CERGS era selecionar estudantes para as Olimpíadas Escolares, nada mais coerente que realizar seus respectivos eventos em consonância. Para estar ajustado, também, ao evento nacional, o primeiro regulamento do CERGS foi elaborado a partir do regulamento das Olimpíadas Escolares, organizada pelo COB. Para tanto, o formato da competição, as regras de cada modalidade esportiva, o número de estudantes/atletas por modalidades, dentre outros aspectos dispostos no regulamento das Olimpíadas Escolares foram incorporados ao primeiro regulamento do CERGS.
Em suas primeiras edições, o CERGS foi promovido e executado pela Fundação de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul (FUNDERGS), com o apoio das instituições de ensino e de federações esportivas do estado. A FUNDERGS foi instituída no Rio Grande do Sul por meio da Lei nº 11.691, promulgada em 20 de novembro de 2001, com o objetivo de planejar, coordenar e executar a política de esporte e lazer no estado (Schneider, 2016). Uma década após o estabelecimento da FUNDERGS, a Secretaria do Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul (SEL) foi criada através da Lei n. 13.601, promulgada no dia primeiro de janeiro de 2011 (Bataglion, 2021). Desde então, a FUNDERGS passou a ser vinculada à SEL, sendo um de seus principais atributos a promoção do esporte no estado.
No ano de 2015, com a nova gestão política instaurada no Rio Grande do Sul, o então governador José Ivo Sartori autorizou a extinção da FUNDERGS, órgão responsável pela execução do CERGS no período. A extinção da FUNDERGS concretizou-se por meio da proposta encaminhada à assembleia legislativa logo no primeiro ano do mandato de José Ivo Sartori, em 2015. Alegou-se que essa medida fazia parte do processo de reorganização orçamentária do estado e visava a redução de despesas do governo.
Mesmo com mobilizações e movimentos de repulsa, no ano de 2017, houve a oficialização da extinção da FUNDERGS, por meio do Decreto nº 53.492, de 30 de março 2017. A partir disso, muitas das ações que estavam sob responsabilidade desta fundação em prol do esporte escolar e não escolar do estado ficou a cargo da então denominada Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul (SEDACTEL), atualmente denominada Secretaria do Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul (SEL). Em suma, as reconfigurações de entidades ligadas ao esporte e à reorganização orçamentária do estado atingiram de forma mais contundente alguns áreas específicas, como a do esporte escolar.
Desde suas primeiras edições, o CERGS é realizado com recursos provenientes da Lei Federal nº 9.615, de 24 de março de 1998, a denominada Lei Pelé. Logo após a extinção da FUNDERGS, no ano de 2015, o valor oriundo da Lei Pelé para cobrir gastos com o CERGS foi de, aproximadamente, R$ 384 mil reais. Quando comparado aos recursos destinados à SEDUC, provenientes do Salário-Educação para realização dos JERGS, o valor é 10 vezes menor, o qual, no ano de 2015, quando houve a extinção da FUNDERGS, foi de R$ 4 milhões de reais (Zanella, 2021).
Uma das justificativas para a diferença orçamentária ora elucidada é a abrangência de ambos os eventos no estado e o número de participantes que estes congregam a cada edição. Considerando que o ensino público no Brasil é massivamente maior em número de estudantes quando comparado à rede privada, os JERGS são responsáveis por atender uma demanda significativamente maior de escolas e participantes que o CERGS. Outro fator a ser destacado é o lapso temporal em que estes eventos são ofertados à comunidade escolar: enquanto os JERGS são realizados há mais de 50 anos, o CERGS tem um pouco mais de uma década de existência. Para Guimarães (2021, p. 5), agente atuante em ambos os eventos durante sua carreira docente, “os JERGS são, sem dúvida nenhuma, um dos eventos mais tradicionais do estado. Praticamente todo o estado participa. O tamanho do CERGS não se compara ao dos JERGS. O CERGS é filho pequeno perto dos JERGS”.
Uma tríade esportiva: relação entre CERGS, JERGS e jogos escolares nacionais
Conforme elucidado anteriormente, o CERGS surgiu com o intuito de promover um evento esportivo escolar para estudantes da rede privada de ensino do Rio Grande do Sul, de modo a suprir uma lacuna deixada pelos JERGS. Quanto às finalidades do CERGS, o regulamento geral referente à edição de 20124 evidencia que:
A Secretaria de Educação (SEDUC), através da Coordenadoria de Esportes, realiza já há muitos anos os Jogos Escolares do Rio Grande do Sul, conhecido como JERGS. Este evento esportivo está destinado somente para escolas públicas do estado, sendo assim, a FUNDERGS, de forma a contemplar também as instituições de ensino privado, propõe a realização do Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul de 2012, denominado de CERGS [...]. O CERGS estará incluindo as instituições de ensino público, juntamente com as particulares (Fundação de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul, 2012, p. 3).
Para promover a integração entre estudantes de escolas privadas e públicas, sendo este um dos objetivos do CERGS, alunos(as) matriculados(as) em instituições públicas também poderiam se inscrever neste evento, contudo, somente em modalidades não contempladas pelos JERGS. No evento realizado no ano de 2012 –edição correspondente ao primeiro regulamento localizado sobre o CERGS–, as modalidades ofertadas nos JERGS foram: atletismo, basquetebol, futebol, futsal, handebol, orientação, voleibol e xadrez (Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, 2012). Com exceção do futebol e da orientação, os demais esportes citados também faziam parte do quadro de modalidades das Olimpíadas Escolares.
Por outro lado, há práticas esportivas que não integram o quadro de modalidades dos JERGS, mas que estão presentes nos jogos escolares nacionais e, por essa razão, passaram a ser ofertadas pelo CERGS ao longo de suas edições: águas abertas, badminton, ciclismo, esgrima, ginástica artística, ginástica rítmica, natação, taekwondo, tiro com arco, triatlo, voleibol de praia e wrestling. Sendo assim, além de incluir as instituições privadas em jogos escolares promovidos no estado do Rio Grande do Sul, o CERGS foi criado para contemplar modalidades esportivas não ofertadas nos JERGS, mas presentes no evento nacional.
| Edições | 20126 | 2014 | 2015 | 2016 | 2017 | 2018 | 2019 | 20207 | 20218 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | 2026 |
| Modalidades | ||||||||||||||
| Águas Abertas* | x | x | x | |||||||||||
| Atletismo | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Badminton* | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Basquetebol | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Ciclismo* | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Esgrima* | x | x | ||||||||||||
| Futsal | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Ginástica Artística* | x | x | x | x | x | x | x | |||||||
| Ginástica Rítmica* | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Handebol | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Judô9 | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Karatê* | x | x | x | x | x | x | ||||||||
| Natação* | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Taekwondo* | x | x | x | x | x | x | x | |||||||
| Tênis de Mesa | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Tiro com Arco* | x | x | x | |||||||||||
| Triatlo* | x | x | x | |||||||||||
| Voleibol | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Voleibol de Praia* | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | ||
| Xadrez | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x | x |
| Wrestling* | x | x | x | x | x | x | x |
Modalidades como o ciclismo e a natação, por exemplo, não são desenvolvidas regularmente no contexto escolar. Em sua maioria, necessitam de materiais especializados e/ou de infraestrutura singular para sua prática. Por essa razão, não estão entre as modalidades mais praticadas nas instituições de ensino, seja nas aulas de Educação Física ou no contra turno escolar. Uma possível justificativa para este fato são os recursos e disposições que modalidades como estas exigem para sua prática, condições que, talvez, somente a rede privada de ensino possa oferecer aos estudantes.
Ao contemplar modalidades esportivas não ofertadas nos JERGS, mas presentes no evento nacional, determinadas conformações históricas do CERGS levantam ponderações reflexivas sobre algumas representações inerentes ao evento e o sistema escolar, advertindo-nos ao provável distanciamento do modelo esportivo e educacional proposto nas escolas. Havendo a inclusão de modalidades elitistas em eventos escolares, tais como o ciclismo e a natação, há a probabilidade de estes estarem privilegiando somente uma parcela de seus participantes: a elite estudantil. De acordo com Carvalho et al. (2020), a inexistência e/ou precariedade de infraestrutura e materiais didáticos para o desenvolvimento de práticas esportivas assola grande parcela das instituições de ensino do país, sobretudo das escolas públicas. Por consequência, escolas públicas que participam do CERGS em modalidades individuais não contempladas nos JERGS podem apresentar resultados menos expressivos quando comparados às instituições particulares do ensino do estado, uma vez que, na maioria dos casos, aquelas não têm oportunidades e condições isonômicas para atingir o ápice do esporte escolar no Brasil.
Transcendendo os muros das escolas sul-rio-grandenses e abrangendo, também, o cenário nacional, destacamos os resultados apresentados no estudo de Kiouranis (2017), o qual realizou um comparativo entre a porcentagem de pódios obtidos por escolas públicas e privadas de alguns estados brasileiros nos jogos escolares nacionais, no período compreendido entre os anos de 2005 e 2014, estando a delegação do Rio Grande do Sul incluída nestes resultados. A partir da figura 1, podemos aferir que, neste período, as instituições da rede privada obtiveram melhores resultados esportivos quando comparadas às escolas públicas do Brasil.

Como alternativa de reverter tal cenário, em algumas situações, estudantes se aproximam de determinadas modalidades elitistas por meio de clubes esportivos, já que estas não são ofertadas na maioria das escolas do Brasil, principalmente nas públicas. Ao perceber tal condição, a comissão organizadora de eventos esportivos se apropria de algumas práticas e as insere no rol de modalidades dos jogos escolares (Zanella, 2021). Em um processo de reciprocidade, em determinadas situações, escolas acabam estabelecendo parcerias com clubes esportivos, disponibilizando a seus(suas) estudantes/atletas melhores condições para os treinamentos. Em contrapartida, tais clubes ganham mais adeptos e divulgação frente à comunidade escolar, utilizando a ferramenta “esporte” como marketing para atrair estudantes.
A partir deste entendimento, a história do CERGS estaria marcada por representações atreladas ao esporte espetáculo e à detecção de talentos. Quando estudantes se destacam como promissores talentos, a escola que lhe oferecer melhores condições e/ou maiores oportunidades teria sua equipe reforçada por atletas mais bem qualificados, os quais passariam a representá-la esportivamente. Neste sentido, os jogos escolares estariam seguindo a mesma lógica do esporte de alto rendimento, onde os(as) estudantes são “negociados(as)” como mercadoria (Frizzo, 2013). Do mesmo modo, o esporte educacional é transformado no esporte espetáculo, se aproximando de competições que privilegiam o esporte de alto rendimento (Eller, 2015).
Após a etapa final estadual do CERGS e a final estadual dos JERGS, em conjunto, a FUNDERGS e a SEDUC passaram a promover uma seletiva entre os vencedores de cada evento, com o propósito de selecionar equipes (modalidades coletivas) e estudantes (modalidades individuais) para compor a delegação do Rio Grande do Sul nas Olimpíadas Escolares. Todavia, no ano de 2011, a seletiva entre estudantes de ambas as redes de ensino não foi inserida no regulamento dos JERGS. Neste documento, há a informação de que os campeões estaduais dos JERGS estariam automaticamente selecionados para o evento nacional (Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, 2011). Acreditamos que isso se deva a recente implementação do CERGS no cenário estadual, uma vez que sua primeira edição contou com um número reduzido de inscritos (Zanella, 2021).
Já na edição seguinte, no ano de 2012, tanto no regulamento dos JERGS quanto do CERGS, tem-se a etapa denominada “seletiva final”, realizada pela SEL, por meio da FUNDERGS. Além da promoção da seletiva final, à FUNDERGS competia organizar a arbitragem, hospedagem e alimentação dos(as) estudantes e professores(as) em mais esta etapa esportiva (Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, 2012; Fundação de Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul, 2012).
Diante de tais ponderações, evidenciamos que, neste período na história esportiva do CERGS, as instituições escolares particulares ganharam um amparo mais efetivo após a criação do evento. O ano de 2011 marcou uma importante parceria estabelecida entre duas secretarias do estado em prol do esporte escolar: a SEDUC e a atualmente denominada SEL, na época, por meio da FUNDERGS. Nesse processo, a SEDUC arca com os custos referentes às passagens de estudantes e professores(as) de escolas públicas selecionados para o evento nacional, verba proveniente do Salário-Educação. Já a FUNDERGS/SEL, por meio dos recursos advindos da Lei Pelé, compete pleitear as passagens aos estudantes e professores(as) em geral, independente da rede de ensino.
Considerações finais
Esta pesquisa objetivou compreender o processo de composição histórica do Campeonato Estudantil do Rio Grande do Sul (CERGS) e as interfaces estabelecidas com outros eventos esportivos escolares realizados no âmbito estadual e nacional, no período compreendido entre os anos de 2011 e 2026. A partir de uma busca inicial realizada por meio de uma revisão bibliográfica quanto ao objeto de estudo desta pesquisa, vimo-nos frente à inexistência de estudos científicos que se dedicam a investigar o CERGS, assim como seu processo de composição histórica, enquanto um evento escolar integrante da cultura esportiva sul-rio-grandense. Tal inexistência reforça a relevância desta pesquisa e, ao mesmo tempo, justifica a sua realização.
No que diz respeito aos registros históricos sobre o CERGS, destacamos a limitada quantidade de documentos e demais fontes históricas encontradas junto à Secretaria do Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul e/ou outras entidades relacionadas. Para além dos regulamentos que compuseram o corpus documental desta pesquisa, não conseguimos localizar fontes históricas de outra natureza acerca do CERGS e de sua história esportiva. Nessa perspectiva, buscamos construir conhecimentos sobre a temática, ampliando a compreensão acerca dos processos históricos e socioculturais do referido evento. Também, tivemos o objetivo de enaltecer a importância quanto ao registro e à preservação da memória esportiva de eventos escolares por parte de órgãos públicos e de agentes e entidades envolvidas.
Para pesquisas futuras, destacamos a importância de ampliar o arsenal de fontes orais utilizadas, de modo a realizar entrevistas com um número mais abrangente de sujeitos que, de alguma forma, integram as conformações históricas do CERGS: estudantes/atletas, professores(as)/treinadores(as) e coordenadores(as)/dirigentes. Com isso, buscaremos diversificar, ao máximo, os sujeitos da pesquisa, selecionando aqueles(as) que assumem diferentes papeis frente ao contexto investigado. Estudos que têm a História Oral como método de pesquisa têm por intuito relacionar e cotejar os depoimentos dos entrevistados, juntamente com as demais fontes analisadas e com a literatura da área disponível sobre o assunto. Quanto mais entrevistas são realizadas, mais congruente é o material coletado sobre o qual se debruça a análise.
Declaração de autoria
Escrita: Raquel Valente de Oliveira
Metodologia: Raquel Valente de Oliveira
Coleta das informações: Raquel Valente de Oliveira
Revisão e edição: Raquel Valente de Oliveira, Janice Zarpellon Mazo
Financiamento
O presente trabalho contou com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Fontes
Guimarães, P. P. S. (2021). Depoimento oral. Entrevistadora: Raquel Valente de Oliveira. Porto Alegre, 2021 (90 min). Entrevista concedida para elaboração de tese de doutorado da entrevistadora.
Zanella, D. E. (2021). Depoimento oral. Entrevistadora: Raquel Valente de Oliveira. Porto Alegre, 2021. (120 min). Entrevista concedida para elaboração de tese de doutorado da entrevistadora.
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Notas
Recepción: 15 noviembre 2025
Aprobación: 6 abril 2026
Publicación: 1 julio 2026