Educación Física y Ciencia, vol. 28, núm. 2, e355, abril-junio 2026. ISSN 2314-2561Artículos
Lazer E Educação Física Escolar: entendimento de professores/as de escolas de educação profissional do Ceará-Brasil
Resumo: O objetivo desse artigo é analisar a presença das tematizações sobre o lazer nas escolas de educação profissional do Ceará-Brasil, a partir do entendimento de professores/as, focando especialmente nas condições físicas, organizacionais e curriculares do trato com esse conhecimento/saber. Para a produção de informações da pesquisa fizemos uma análise documental da Base Nacional Comum Curricular e do Documento Curricular Referencial do Ceará: ensino médio, além disso realizamos entrevistas com oito professores de escolas públicas do estado e visitas às escolas. Se evidencia a presença do lazer nas escolas nos documentos, nas aulas e nos momentos de descanso. Também pode-se observar que há elementos estruturais e desejo de docentes para aprofundar as vivências e debates dessa temática. Contudo, se tensiona especialmente de que forma ele deve ser abordado nas aulas de Educação Física.
Palavras-chave: Lazer, Educação Física, Escola, Ceará.
Ocio y Educación Física en la escuela: comprensión de profesores/as de escuelas de educación profesional en Ceará, Brasil
Resumen: El objetivo de este artículo es analizar la presencia de temas de ocio en las escuelas de formación profesional de Ceará, Brasil, a partir de la comprensión del docente, centrándose específicamente en las condiciones físicas, organizativas y curriculares para abordar este conocimiento. Para generar datos de investigación, realizamos un análisis documental de la Base Curricular Común Nacional y el Documento Curricular de Referencia de Ceará: Enseñanza Media (secundaria). También realizamos entrevistas con ocho docentes de escuelas públicas del estado y visitamos las escuelas. La presencia del ocio en las escuelas es evidente en los documentos, en las clases y durante los recreos. También es posible observar elementos estructurales y un deseo entre los docentes de profundizar en las experiencias y debates sobre este tema. Sin embargo, existe una tensión particular sobre cómo debe abordarse en las clases de Educación Física.
Palabras clave: Ocio, Educación Física, Escuela, Ceará.
Leisure and Physical Education at School: The understanding of teachers from professional education schools in Ceará, Brazil
Abstract: The objective of this article is to analyze the presence of leisure-related issues in professional education schools in Ceará, Brazil, based on the understanding of teachers, with a focus on the physical, organizational, and curricular conditions for addressing the subject. To generate research data, a documentary analysis of the National Common Curricular Base [Base Nacional Comum Curricular] and the Ceará Reference Curricular Document: High School [Documento Curricular de Referência do Ceará: Ensino Médio] was conducted, along with interviews with eight teachers from public schools in the state and visits to the schools. The presence of leisure in schools is evident in the documents, in lessons, and during break times. Structural elements and a desire among teachers to delve deeper into experiences and debates on this topic were also examined. However, there is particular tension regarding how leisure should be addressed in Physical Education classes.
Keywords: Leisure, Physical Education, School, Ceará.
Introdução
O lazer como necessidade humana (Gomes, 2014) e marcador social é um tema importante a ser desenvolvido na escola, visto que ela se apresenta como instituição de formação social e entendemos que a mesma não se configura apenas em um lugar de mera transmissão de conhecimentos. A escola proporciona a convivência entre diferentes pessoas, de variadas culturas e significações sociais (Duran, 2012). Precisamos investigar o que é produzido e reproduzido dentro das escolas, para então entendermos como o currículo pode ser um dispositivo de controle ou de resistência. Segundo Bracht:
A escola também tem a tarefa de ajudar a continuar a dar vida à cultura (lúdica), mas a partir de um outro entendimento da relação cultura-trabalho; entendendo cultura como um conceito produtivo: criar, produzir cultura, tarefa de sujeitos e não meros consumidores de produtos. Essa é uma condição essencial para que a escola auxilie numa das tarefas fundamentais da cultura, que é a de exercitar a constante crítica dos rumos que o homem elege e constrói para si enquanto ser da cultura. (2003, p. 167)
A Educação Física pode ser um espaço fértil para a discussão do lazer visto que tem em seu escopo manifestações culturais geralmente presentes nos tempos e espaços de fruição da população. Reconhecemos que o lazer possibilita o desenvolvimento cultural e social, expressão de opiniões, democratização através do seu processo educativo. Dessa forma Bracht aponta que:
Entre educação e sedução, o mercado prefere, sem dúvida, o mecanismo da sedução para nortear a ação dos consumidores. Portanto, cresce em nosso entendimento, na perspectiva de uma pedagogia crítica, a importância desse tema na discussão do papel da educação hoje. (2003, p. 169)
Ainda pensando nesses impactos do mundo do trabalho e do mercado, se faz necessário pensar na Educação Profissional e suas relações com o lazer. Essa modalidade educacional no Brasil visa preparar para uma profissão técnica, especialmente vinculado ao ensino médio (Brasil, 2018). Contudo, o direcionamento dado a essa formação pode produzir emancipação ou exclusão (Frigotto, 2001), daí a importância de planejamento, lutas e reflexão.
Partindo dessas considerações, nosso objetivo nesse texto é analisar a presença das tematizações sobre o lazer nas escolas de educação profissional do Ceará, a partir do entendimento de professores/as, focando especialmente nas condições físicas, organizacionais e curriculares do trato com esse conhecimento/saber.
Caminhos da pesquisa
Esse estudo é caracterizado como uma pesquisa de abordagem qualitativa, que se preocupa em analisar e interpretar aspectos mais profundos, descrevendo a complexidade do comportamento humano. Fornecendo análises mais detalhadas sobre as investigações, hábitos, atitudes e tendências de comportamento (Marconi & Lakatos, 2008).
Nos aproximamos da pesquisa descritiva e explicativa. Conforme Taquette e Borges (2020, p. 52), “a pesquisa descritiva é a que descreve, analisa e interpreta o objeto de estudo”, por sua vez a pesquisa explicativa, segundo as autoras, além das mesmas ações da pesquisa descritiva também tenta identificar causas e motivações.
A pesquisa foi submetida ao Conselho Nacional de Ética em Pesquisa do Brasil, sendo aprovado sob o Número CAAE 67457823.2.0000.8367. E foi realizada nas seguintes Escolas Estaduais de Educação Profissional (EEEP): EEEP Leopoldina Gonçalves Quezado, localizada na cidade de Aurora-CE; EEEP Prof. José Osmar Plácido da Silva, localizada na cidade de Barro-CE; EEEP Balbina Viana Arrais, localizada na cidade de Brejo Santo-CE; EEEP Padre João Bosco de Lima, localizada na cidade de Mauriti-CE; e EEEP Irmã Ana Zélia da Fonseca, localizada na cidade de Milagres-CE, sob o acompanhamento da 20ª Coordenadoria Regional de Educação do Ceará (CREDE 20). Também analisamos três Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, nos campus: Fortaleza, Juazeiro do Norte e Canindé. Totalizando oito escolas investigadas no estado do Ceará.
Os/As professores/as da rede estadual serão aqui denominamos de PEE e os/as dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologias (IFs), denominados de PIF. Os/As cinco entrevistados/as da rede estadual são professores/as temporários/as e os três IF são professores/as efetivos/as. Como critérios de inclusão dos/as participantes desta pesquisa estabelecemos os seguintes aspectos: ser professor/a de EF da rede estadual ou federal do Ceará com vínculo efetivo ou temporário nas escolas de educação profissional. Como critérios de exclusão: não estar atuando em sala de aula; estar de licença; e/ou, que trabalhe em outros setores como por exemplo: coordenação e direção.
O contato inicial com os/as professores/as se deu através da realização de visitas nas respectivas escolas, nas quais foram solicitadas informações acerca da disponibilidade dos mesmos para a participação na pesquisa. Os/as professores/as que aceitaram participar da pesquisa receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) contendo as informações gerais da pesquisa, além da garantia dos direitos, riscos e benefícios para o participante.
Para a produção dos dados realizamos entrevistas semi-estruturadas (Triviños, 1987) com professores/as das escolas citadas, durante o ano de 2024. Esse tipo de entrevista combina perguntas abertas e fechadas, onde o/a pesquisador/a tem a possibilidade de aprofundar no tema proposto. Para investigação das percepções dos(as) professores(as), este tipo de entrevista possibilita maior discussão nas análises dos resultados sobre uma dada realidade social, “tratam da reflexão do próprio sujeito sobre a realidade que vivencia” (Minayo, 2016, p. 65). A entrevista semiestruturada foi moderada pela pesquisadora responsável, com duração entre 40 a 90 minutos. As entrevistas foram gravadas em formato de áudio e foram transcritas com fidedignidade as falas dos/as entrevistados/as. A adesão ocorreu de forma voluntária. Também foram analisados alguns documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Documento Curricular Referencial do Ceará (DCRC).
O Lazer no Currículo
O currículo é um artefato que pode ser determinante no meio educacional e na formação dos/as estudantes, quando selecionamos algum conteúdo, estamos privilegiando determinados conhecimentos e excluindo outros. Diante do exposto, torna-se visível que o currículo não é neutro. Entendemos que o mesmo é um objeto de poder, portanto, consideramos necessário pensar o processo de construção do currículo escolar. Sobre essa questão Apple, traz que “seria impossível compreender completamente como os currículos funcionam e como eles são produzidos a partir das relações de poder, conflitos e acordos sem termos um quadro mais completo do que a própria escola faz (…)” (1989, p. 47).
A educação brasileira está passando por várias transformações ao longo dos anos, porém ainda persistem nos currículos das escolas públicas um modelo econômico mercantilista e reprodutor de valores da sociedade capitalista com o intuito de formar para a mão de obra fabril. As políticas educacionais, especialmente os currículos prescritos, tendem a atender aos interesses sociais dominantes. O que se pode observar é que a organização curricular reflete uma contradição existente na aplicabilidade dos mesmos, e a relação entre as escolas e o que os currículos precisam atender necessidades da população em um sentido mais abrangente (Zotti, 2002).
Silva (2002), em seu estudo faz uma importante análise sobre currículo, apontando para a necessidade de entender a organização e formação curricular, reconhecendo a importância de torná-lo uma ferramenta. Reforçando o entendimento do currículo para além de um mero documento legal. Segundo o autor, o currículo deve estar relacionado com um reflexo da realidade. Entendemos que o currículo não se constitui unicamente no que está posto através de leis e diretrizes, mas também de todas as práticas que permeiam o chão da escola. Práticas essas que são desenvolvidas por todas as pessoas que compõem o espaço escolar no qual podemos citar os/as próprios/as estudantes, professores/as, pais/mães, zeladores/as e gestão escolar. Contudo, alguns documentos têm sido um importante marco para se analisar o currículo, no Brasil, como a BNCC (Brasil, 2018), os referenciais estaduais e os Projetos Político-Pedagógicos das escolas.
O currículo constrói cultura, valores e significados sociais, pensando dessa forma entendemos que o mesmo precisa ser emancipador, libertador e, portanto, precisa ser construído através da participação social, no qual haja verdadeiramente a contribuição de toda a sociedade. Para tanto, é necessária uma reformulação considerável de muitos dos currículos existentes, incluindo a BNCC. Entendemos que para além do currículo oficial existente nas escolas existem aspectos inerentes ao ambiente escolar que contribuem para a formação dos/as estudantes.
Ao consultar o documento da BNCC, foi percebido o aparecimento do lazer, sendo abordado no campo social e cultural e apresentado de forma multidisciplinar. Contudo, de forma pontual e resumida. Entendemos que é necessário dentro do próprio documento trazer alguns subsídios de como o lazer deve ser efetivado dentro do ambiente escolar (Beltrão et al., 2020).
Em suma, a BNCC apresenta em sua redação que o lazer pode ser uma habilidade/competência a ser desenvolvida pelos/as estudantes. Outro ponto perceptível em relação ao lazer, foi sobre a comparação de trabalho e lazer no tempo presente, como também nos espaços e suas transformações. Destacamos que, em relação ao lazer, a BNCC e o DCRC em alguns pontos se tornam semelhantes.
Analisando o lazer nos documentos podemos observar que ele aparece em diversos momentos (Martins et al., 2023). Observamos que a palavra lazer está presente dentro do DCRC. No texto foi citado como base para a DCRC a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e Adolescente, no qual o lazer figura como direito social.
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. (Ceará, 2021, p. 22)
Além disso, a palavra aparece mais nove vezes no DCRC, sendo quatro vezes vinculadas ao componente curricular Educação Física, uma vez à língua inglesa, duas vezes à filosofia e uma vez ao Curso Técnico Eventos, Guia de Turismo e Hospedagem. Na Educação Física aparece uma vez replicando a BNCC e três como objeto de conhecimento, são eles: “Equidade nas práticas corporais de lazer e competitivas”; “Práticas corporais no lazer e na educação”, “Práticas corporais para saúde (hábitos saudáveis, manutenção ou melhoria da saúde e qualidade de vida, etc.), lazer, estética e profissionalização” (Ceará, 2021, pp. 131-145). Quando o documento aponta esses objetivos dentro da EF potencializando a manutenção e qualidade de vida colocando o lazer como opção para que isso ocorra, corrobora com o pensamento de alguns/mas professores/as que participaram desta pesquisa, entendemos que o documento em questão poderia trazer mais discussões em relação ao desenvolvimento crítico da realidade dos/as estudantes e da educação para o lazer.
Observamos, portanto, que dentro das recomendações feitas no documento o mesmo trata do lazer como prática corporal vinculado ao entretenimento, reproduzindo um trecho da BNCC: “movimento corporal como elemento essencial; organização interna (de maior ou menor grau), pautada por uma lógica específica; e produto cultural vinculado com o lazer/entretenimento e/ou o cuidado com o corpo e a saúde” (Brasil, 2018; apud Ceará, 2021, p. 108). Quando o documento aponta dessa forma, existe uma tendência em entendermos que o mesmo relativiza o lazer como algo que deve ser vivenciado apenas para entreter, sem a pretensão do desenvolvimento crítico dos/as estudantes em relação ao lazer.
Seguindo essa discussão, outro ponto em que o lazer aparece, é dentro da formação profissional, no qual o DCRC traz o lazer como possibilidade dentro dos cursos técnicos ofertados pelo Estado do Ceará. O lazer aparece também como objetivos específicos em outras disciplinas do currículo como a Língua Inglesa e Filosofia. Dentro desse ponto o documento faz relação de trabalho e lazer, porém somente citando.
Identificamos, portanto, o documento estadual e a BNCC não apresentam possibilidades bem organizadas e aprofundadas para o trato com o lazer dentro das escolas, inclusive vinculando a apenas a fruição. Entendemos que as reflexões acerca do tema lazer poderiam ser melhor exploradas, por possibilitarem contribuições sociais para além da mera prática, facilitando dessa forma para os/as estudantes outras compreensões da sua realidade (Martins et al., 2023).
Formas de olhar para o lazer nas escolas
Na análise das entrevistas, vemos que alguns/as professores/as afirmam a não presença do lazer no ambiente escolar, apontando para a problemática da não existência de um tempo destinado ao lazer, destacando ainda a importância do tempo livre e considerando à permanência dos/as estudantes dentro da escola, sendo uma carga horária extensa e praticamente voltada para a formação técnica. Vejamos na fala a seguir:
Pelo contrário, os programas escolares hoje cada vez mais querem ocupar todos os tempos possíveis e o aluno, ele não pode ter tempo livre. Se a gente entende que lazer é tempo livre, então a escola, educação de uma forma geral, ela está na contramão do lazer, né? Porque ela não promove esses espaços de tempo livre. Ela não promove os espaços de folga, né? Os espaços de recreio. Os espaços, né? É os tempos livres mesmo. (Entrevista, PIF7)
Dessa forma, os espaços e tempos escolares, são destinados para a divisão do currículo dos/as estudantes, e dentro dessa divisão os intervalos são tidos como o momento de “descanso”. Percebemos, portanto, que o lazer é um conhecimento/saber em disputa dentro do ambiente escolar. As falas dos/as professores/as nos deixam pistas de que é preciso estratégias que possibilitem a ampliação de tempo livre dentro das escolas, para assim reduzir as barreiras para a prática de atividades livres.
Outro ponto a destacar nas reflexões dos/as docentes foi a associação do lazer como algo para ser feito nos tempos imprevistos, ou seja, em aulas vagas, nesse sentido apontamos para a problemática do pouco conhecimento sobre sua aplicação como temática de aulas, o que poderia ajudar os jovens a reivindicarem politicamente pelo direito ao mesmo, tomando uma posição de forma de resistência ao sistema. Vejamos as falas a seguir:
Os alunos quando a gente trabalha o lazer, eles associam muito a aula livre, “ah, então deixa a gente jogar o que a gente quer”, aí fica aquela aula livre… é… um grupinho tocando a bola de futsal, um grupinho toca na bola de voleibol, um grupinho pulando corda (…). (Entrevista, PEE1)
Acho que quando vocês saírem daqui agora, vocês vão ver, tem alguns jogando peteca aqui, outros estão na quadra, mesmo na ausência dos professores são altamente elétricos, em termos de movimento, mostrar alguns correndo, né? Em questão da atividade física aqui na escola, isto é imprescindível, isto é indiscutível, eles gostam mesmo. (Entrevista, PEE2)
Dessa forma, podemos observar que o lazer dentro da escola pode ter sua existência reduzida a esses momentos de intervalos ou mesmo nos momentos de imprevistos de aulas. Percebemos ainda a preocupação em reavaliar os currículos escolares no sentido da distribuição da carga horária, precisamos ter estudantes e professores/as que possam estar atentos/as aos debates sobre as questões do lazer, que desenvolvam autonomia em reivindicar pelos direitos em geral da sociedade. A seguir traremos algumas falas que reforçam sobre como o lazer se apresenta nas escolas:
(…) Já que os alunos têm momentos de descanso, de almoço, uma interação com os demais colegas, então acho que esse momento ele existe sim, é exatamente esse período e os participantes são na verdade todos os envolvidos com ambientes escolar, já que todo mundo tem a sua missão dentro da escola, assim como também tem esse momento de Descanso. (Entrevista, PEE5)
Aí assim, eu fico feliz quando eu percebo que tem alunos que pegam um material e vão jogar no horário que na verdade não estão em aula, eles pedem, tem na verdade alguns materiais que são disponibilizados exatamente para que eles possam utilizar certo momento que eles estão de intervalo de almoço, certo? (…) Então de forma geral, pela minha observação são mais essas práticas assim, mas elas não são dirigidas e ou planejadas. São mais práticas de lazer livres que partem dos alunos nesse sentido. (Entrevista, PIF6)
Através das atividades citadas pelos/as participantes da pesquisa pudemos observar que os mesmos consideram os jogos e brincadeiras como sinônimo de atividades realizadas para lazer, corroborando dessa maneira para a reprodução de atividades que muitas vezes são retiradas de livros e manuais e replicadas dentro da escola. As ações dentro dos espaços escolares são construídas através das relações pessoais, entretanto é complexo fazer uma análise delas sem entendermos que essas relações estão ancoradas pela relação do poder de quem detém o capital econômico (Aulicino, 2011).
Destacamos que as escolas seguem uma estrutura, uma organização em tempos, no qual essa divisão seria o tempo de estudo e o outro o tempo do não estudo, entendemos dessa maneira que as estruturas escolares estão divididas entre o tempo de trabalho que é o tempo de “estudo” e o tempo do não trabalho que é o “descanso”. A partir dessa análise apontamos sobre o questionamento das “obrigações escolares”, ou seja, se está em aula, está no momento das obrigações, do trabalho, compreendemos dessa forma, que os tempos escolares estão delimitados e demarcados.
A escola foi vista por muito tempo como um lugar de transmissão de conteúdo, esse cenário aos poucos vem mudando. Nesse sentido, é necessário pensar a escola com outros olhares, como espaço de convivência, experiência e de relações interpessoais. Se pensarmos o significado da escola pelo viés de professores/as, alunos/as e funcionários/as, cada um/a deles/as terão significados diferentes. A escola, pode promover a transformação do currículo, considerando a cultura dos/as estudantes, colaborando para uma formação humana e não apenas um espaço de transmissão de conteúdo (Dayrell et al., 2009).
Ao olharmos para a fala do/a entrevistado/a PEE3, que afirma desenvolver, dentro das aulas de EF o lazer uma vez ao mês, entendemos o quanto precisamos aprofundar nessa temática: “Sim, está presente! Ela tem uma aula, como eu falei que é referente a atividade lúdica durante o mês, é nas aulas de EF uma aula dela por mês e os alunos da sala participam” (PEE3). Precisamos ter um olhar mais aprofundado sobre a importância de conhecer a realidade dos/as estudantes, o que o cerca e de como os/as professores/as podem desenvolver a criticidade, a emancipação e autonomia dos mesmos.
Entendemos que algumas escolas aqui estudadas trabalham projetos que pensam no/a estudante como centro do conhecimento, onde é possível ofertar um ensino de qualidade no qual os valores culturais podem ser difundidos. Dessa forma, pensamos que a escola deve respeitar e assumir todas as diversidades que permeiam o seu contexto e o cotidiano da mesma, reconhecendo a oportunidade de crescimento nas relações entre as pessoas. Entendendo que os sujeitos ali inseridos são detentores de saberes, conhecimentos e experiências prévias adquiridas ao longo do tempo que permite uma bagagem sociocultural.
Assim, a escola deve formar ou mesmo educar para a emancipação dos/as estudantes, para liberdade de escolhas, expressões, autonomia e desenvolvimento pessoal e humano. Dessa forma, repensar os seus modos de ensino, se desprendendo dos velhos métodos e formas e que de fato passe por uma reformulação em todos os sentidos (Aulicino, 2011).
Também encontramos nas falas de alguns/as professores/as que o lazer se encontra na escola através de programas que estão vinculados a escola como também em datas oportunas:
Na minha instituição, a gente tem um programa, o Instituto como um todo, ele tem um programa de lazer, tem um nomezinho que agora eu não lembro, inclusive tem uma coordenação de desporto e lazer, e a coordenação é desporto, lazer e cultura, então tem um profissional que às vezes é um professor de EF, às vezes não é, sabe, depende, e aí a função dele é desenvolver essas práticas de lazer, essas práticas culturais de lazer e desportiva no campus, para os alunos e para os servidores (…) Então na minha instituição realmente existe. (Entrevista, PIF8)
Mas e a escola também ela proporciona assim muitos momentos de lazer, por exemplo no dia do estudante sempre em dias assim comemorativos ela costuma sempre realizar algo voltado para o lazer deles, no dia do estudante que foi sexta-feira, dia 11, eles tiveram um dia de lazer na chácara balneário caldas, todas as turmas foram para o balneário que na verdade é uma forma de lazer e sai um pouquinho do âmbito escolar e se divertir um pouquinho em um local com banho, a escola disponibilizou a alimentação e transporte e eles passaram um dia nesse ambiente. (Entrevista, PIF4)
A presença desses programas/projetos pode colaborar para o usufruto do lazer fortalecendo o desenvolvimento social. Durante a realização dos mesmos, os espaços disponibilizados pela escola são potencializados, trazendo para a escola diferentes públicos, tornando a escola um ponto de referência no bairro (Melo, 2005).
Dessa maneira, percebemos através das falas de professores/as que a aprendizagem não se limita apenas ao espaço da sala de aula. Ela pode ocorrer em todos os ambientes e em diferentes momentos, principalmente por meio das interações sociais e das práticas cotidianas. É interessante observar como os/as estudantes podem se beneficiar da socialização e da troca de informações socioculturais fora do ambiente formal de ensino. Essas experiências contribuem para o desenvolvimento integral dos estudantes.
Como observado nas entrevistas, no contexto escolar, o lazer é compreendido por meio de práticas e atividades, como brincadeiras, jogos, movimentações e vivências que os/as estudantes experimentam fora da sala de aula. Essas vivências e experiências, contribuem para a construção do conhecimento e para a compreensão de mundo. Compreendemos, portanto, que o lazer não se restringe apenas ao entretenimento, mas também é um espaço de aprendizado, de expressão e desenvolvimento social dos/as estudantes, no qual eles/as podem internalizar suas representações de forma mais integrada ao seu cotidiano escolar.
Diante do exposto, percebemos que as experiências vivenciadas pelos jovens, dentro da escola vão além das atividades planejadas em sala de aula, as atividades desenvolvidas mesmo em um período curto de tempo de diversas formas e distribuídas em vários espaços, contribuem significativamente na formação social dessa juventude. Assim sendo, os intervalos representam o espaço no qual os/as estudantes podem estar livres para descansar, se movimentar, ou mesmo realizar alguma atividade do seu interesse. Se tomamos eles e elas como sujeitos sociais, como aborda Dayrell (2003), devemos olhar essa possibilidade como uma forma rica de permitir sua produção, sua expressão e sua participação nas dinâmicas escolares, um momento de autonomia e até de resistência.
Além dessa presença fora das aulas ou em “aulas livre”, alguns/mas docentes sugerem que o lazer pode ser desenvolvido por um trabalho transversal e também enquanto uma unidade temática. O trabalho transversal é aquele mais constante, onde aparece nas brechas e na dimensão de outras práticas. Ele se torna importante pois costura e mostra a relação do lazer com outras temáticas.
Então a gente nas aulas também fala que para praticar lazer não necessariamente você precisa ter algo oficial, uma bola oficial, um campo oficial, uma quadra oficial, você pode praticar lazer em qualquer lugar (…). Por conta que a competição ela limita muito a participação do aluno, a competição limita muito, vai ter que haver na escola? vai ter que haver na escola, a competição! Só que se você for trabalhar só competição na escola, você vai excluir aqueles que não tem habilidade, então o lazer não é exclusivo, né? O lazer é amplo, para que todo mundo possa participar, então os jogos desportivos podem ter a sua contribuição. (Entrevista, PEE2)
A unidade temática apresenta um trabalho mais direcionado e aprofundado, abordando temas como: direito ao lazer, espaços e tempos de lazer, possibilidades de resistência ao lazer como mercadoria, relação entre lazer e trabalho.
Para mim o lazer, ele antes de tudo ele é uma, eu considero, como uma prática social, sócio histórica, e eu também tenho um posicionamento que ela seja sócio política. No sentido de que a gente não adianta falar de lazer, se eu não tenho políticas públicas para o lazer, então eu vou muito nessa perspectiva do lazer como uma garantia de direito, porque está na constituição federal, é uma garantia ao cidadão brasileiro ter acesso às práticas de lazer e nessa contextualização a questão mesmo sociocultural, e cada vez mais a gente percebe que o lazer vem saindo dos espaços mais amplos e indo pros espaços mais pequenos da própria casa. (Entrevista, PIF6)
As duas possibilidades são muito importantes ao pensarmos a Educação Física como um componente curricular, ou seja, que deve desenvolver junto aos/às estudantes conhecimentos. Pois, trabalhar o lazer, não pode ser sinônimo simplesmente de tempo para os/as estudantes ficarem “livres”.
Para além do trato transversal, é fundamental que o lazer seja tematizado de forma focada e central em aulas de Educação Física. Nesse sentido, também foi possível perceber a preocupação de alguns(mas) professores(as) com os vínculos do lazer com discussões mais amplas, como o trabalho e as condições objetivas de vida. Essa preocupação aparece nas falas de alguns/mas professores/as sobre o direito social previsto do lazer, que pode ser debatido dentro da escola a fim de complexificar o debate se esse direito de fato é acessado pelas camadas sociais, direito esse que deve ser considerado como uma necessidade humana. Visto isso, identificamos na fala do/a entrevistado/a PIF8 “Eu acho que o lazer, ele é um dos maiores exemplos de como o sistema capitalista, a classe hegemônica nos consegue controlar, entendeu?”.
Verificamos, portanto, sobre a necessidade de pensarmos o lazer nos currículos de formação em EF, especialmente na EF escolar, como um aparato educacional para o desenvolvimento das relações e potencialidades dos indivíduos, na formação de cidadãos suficientemente autônomos (Isayama, 2018). Também é preciso ampliar as discussões e estudos sobre lazer, nos cursos de formação profissional, pois acreditamos ser relevante entendermos sua imbricação no processo educacional. Dessa forma, entendemos ser necessário repensar a formação dos/as professores/as que atuam ou irão atuar no campo do lazer.
Nos estudos de Stoppa (2000), o mesmo, aponta que a formação para o lazer pode auxiliar na construção de saberes que devem relacionar-se ao comprometimento com os valores alicerçados em uma sociedade democrática. O/A professor/a precisa exercer o papel social na Educação na compreensão do lazer, colaborando com domínio de conteúdos que devem ser socializados, entendendo de seus significados em diferentes contextos.
Assim, os currículos dos cursos de graduação em EF no bojo do seu desenvolvimento podem ampliar o conhecimento apresentando possibilidades que possam fomentar diálogos sobre o lazer, não limitando-se apenas a atividades físicas e esportivas. Nesse sentido Isayama (2018) corrobora com pensamento sobre a disputa dentro dos currículos escolares e nos embates em torno dos conhecimentos e valores que são considerados dignos de serem transmitidos e apreendidos pelos jovens.
Condições de existência e acontecimento do lazer no cotidiano da escola
O debate sobre o ensino integral tem ganhado forças nos últimos anos. Percebemos o aumento da oferta dessa modalidade de ensino, que tem como objetivo a formação ampliada dos/as estudantes. Dessa forma, a estrutura escolar precisa dar oportunidade física estrutural para atender a demanda, adequando os espaços internos, como também aumentando a possibilidade de espaços livres para realização de outras vivências dentro das instituições educacionais. Nos estudos de Azevedo et al., as autoras afirmam que “um território educativo, a exemplo da cidade e seu sistema de espaços livres públicos, é um lugar de manifestações, palco das relações sociais, elemento fundamental que potencializa o processo educativo, recreativo, cultural e de integração social” (2011, p. 348).
A escola, portanto, se torna um equipamento social, no qual os estudantes se apropriam dos espaços em um sentido de pertencimento. Acreditamos, através dos relatos feitos pelos/as professores/as durante as entrevistas, que a proposta de educação integral precisa ampliar os tempos e espaços escolares, oportunizando experiências para além dos muros das escolas, buscando romper com paradigmas tradicionais.
Além disso, Soares e Nolasco-Silva (2015), pesquisadores dos cotidianos escolares, definem que:
Os cotidianos, tal qual os entendemos, são palcos que abrigam sujeitos singulares e coletivos, sujeitos em trânsito – que são e que se tornam –, praticantes que tecem e articulam redes de conhecimentos e significações, que fabulam subjetividades e orientam, a partir delas, suas ações. Os cotidianos são, pois, lugares de produção de conhecimentos (incluindo-se, entre eles, os valores) e também de invenção da existência. Em outras palavras, nada existe fora do cotidiano, de sua imanência, de seus diversos contextos, dimensões, espaços tempos nos quais os sujeitos se constituem e a vida se forma, informa e acontece. (p. 177)
Nesse sentido, tentamos interpretar neste estudo a realidade escolar percebendo práticas que refletem o lazer e que fazem parte dos cotidianos aqui estudados. As escolas têm tempos predeterminados, com isso os estudantes da Educação Profissional têm poucos momentos livres, pouca liberdade na dinâmica do espaçotempo de escolarização (Ferraço, 2007; Ferraço et al., 2016), esses podendo ser definidos para cada momento da permanência no ambiente escolar, o que resta são intervalos entre as aulas, os recreios, a volta a sala ou mesmo a ida ao banheiro.
Percebemos, portanto, que dentro do currículo escolar a Educação Física tem seus tempos e espaços definidos e organizados dentro de uma cultura escolar, e os espaços para vivência do lazer acontecem de maneira restrita. Assim, pensar o espaço da Educação Física escolar trata-se então, de pensar um espaço que não foi estruturado fundamentalmente como um espaço de lazer, e a nosso ver não deveria ser, mas sim um espaço para se pensar, desenvolver conhecimentos e questionar as estruturas do/sobre o lazer.
As instituições aqui estudadas estão bem localizadas nas cidades as quais elas pertencem, durante as entrevistas pudemos ir até os locais para sentir as mesmas de perto. Ao entrar nas instalações das escolas estaduais e federais, percebemos que elas possuem um espaço físico grande, com amplas áreas externas e estruturas físicas novas ou bem conservadas.
Nas escolas estaduais, os tempos escolares são divididos em nove aulas de cinquenta minutos com intervalos, o primeiro intervalo, com duração de 20 minutos, acontece entre a terceira e quartas aulas, em seguida mais duas aulas e o intervalo para o almoço, maior do que o anterior, na sequência outras duas aulas e um novo intervalo, por fim, duas aulas e finaliza as atividades do dia letivo. Esses intervalos, segundo os/as participantes da pesquisa, são momentos em que os/as alunos/as podem estar juntos num mesmo espaço, permitindo momentos de trocas de experiências e de encontros, momentos esses onde os/as jovens estudantes se apropriam dos espaços da escola de diferentes formas.
Analisando as divisões dos tempos, é possível observar que existe um processo continuado de atividades organizadas cuja prática estabelece o cotidiano dos/as estudantes, no qual determina que deve ser cumprido em cada horário. Segundo Dayrell (1996, p. 147), “a arquitetura e a ocupação do espaço físico não são neutras, e tudo é delimitado formalmente, segundo os princípios racionais que expressam uma expectativa de comportamento de seus usuários”. Dessa maneira, entendemos que a escola possui características que expressam e determinam regras bem planejadas com o propósito de manter certa ordem e disciplina.
Os variados espaços utilizados pelos/as estudantes nos intervalos, espaços esses que segundo os/as professores/as participantes da pesquisa são apropriados, bem equipados, transformam-se em ponto de encontro para conversar, ler e escutar música. “Quanto ao material necessário isso a gente não tem o que reclamar, sempre que a gente solicita a escola sempre tem disponível” (Entrevista, PEE3).
Sim, não deixa desejar. Venho trabalhando desde 2019, como professora do estado e foi a escola que eu me surpreendi em relação a materiais, em relação ao espaço, muito, muito bem equipada (…) muitas bolas de futsal, muitas novas de voleibol, muitas bolas de basquete, handebol…é…dardo…é…raquete de badminton, redes, bambolês, muitos bambolês, tatames, cordas, muitas cordas… então é dá para trabalhar muita coisa. (Entrevista, PEE1)
É perceptível que as escolas aqui estudadas têm o suporte necessário para a realização das aulas como também para a realização de atividades extras aulas, portanto, não conseguimos identificar por quais motivos do negligenciamento do conteúdo lazer das escolas, os espaços e equipamentos escolares precisam ser mais bem explorados, onde os/as alunos/as possam se apropriar. Santos (2022) aponta para essa problemática no seu estudo, no qual retrata sobre as normas dentro do cotidiano escolar, fazendo uma contradição do que é praticado e o que está previsto nas normas escolares. A autora afirma a falta de atenção para com o lazer, sendo o mesmo muitas das vezes proibido dentro das escolas.
Diante do exposto, entendemos que os tempos e espaços escolares podem ser usados para o exercício da liberdade dos jovens ali inseridos, embora exista um controle, uma limitação dessa liberdade. Outra forma de controle que também pode estar relacionado às escolhas dos conteúdos por parte dos/as professores/as é que as propostas e ações são geralmente apresentadas e orientadas pelos coordenadores e diretores escolares.
Observamos, portanto, que a formação profissional e equipamentos são necessários e relevantes dentro das práticas corporais da escola. Celi Taffarel em uma entrevista, aponta que é necessário espaços, tempos e equipamentos adequados para que então haja aprendizagem. A mesma afirma que a classe trabalhadora precisa usufruir de tempo e espaços destinados para a fruição da cultura corporal, sendo esse um ponto fundamental para a humanidade (Taffarel et al., 2012).
Nas falas dos/as professores/as percebemos afirmações sobre o acesso aos bens e materiais públicos nas cidades onde as escolas estão situadas, apontando que há uma distribuição desigual desses espaços entre os bairros, podendo essa desigualdade restringir os alunos a vivenciar o lazer fora da escola. Entendemos que o acesso aos bens públicos pode e precisa ser acessível, democrático, coletivo e inclusivo, que possam contemplar a todos/as sem distinção de classe social, idade, gênero, religião e raça, promovendo a igualdade, dignidade e respeito às diferenças. Esperamos que as vivências extrapolem os muros da escola e reverbere na comunidade, como também nas relações humanas da sociedade (Fonseca et al., 2015).
Podemos observar nas entrevistas que são variados os espaços frequentados continuamente pelos jovens dentro da escola. Existe uma diversidade e distribuição de espaços dentro das escolas. Os/As professores/as de Educação Física devem utilizar de diversas atividades e de diversos lugares presentes no ambiente escolar e extraescolar, dessa forma os alunos terão mais oportunidades de vivenciar outras atividades para além dos esportes como futsal, handebol, basquetebol e voleibol.
As autoras, Tschoke et al. (2011) apontam para a problemática da diminuição dos espaços públicos das cidades com o aumento da industrialização, acarretando dessa forma, em carências de espaços para a prática de lazer. As autoras apontam que as escolas são ambientes públicos diversificados e com grande potencial para o desenvolvimento de vivências, por entenderem que o espaço escolar faz parte da comunidade.
Compreendemos dessa forma que os/as professores/as são agentes sociais que podem protagonizar o desenvolvimento e a implantação do lazer dentro da escola. Entendendo e visualizando a formação plena dos estudantes no sentido de construir, junto aos mesmos, uma relação de autonomia, criticidade e protagonismo no campo do lazer.
Equipamento material, quanto a isso a gente não tem problema não, porque sempre tem um recurso que vem do governo que é disponibilizado para compra de materiais esportivos, aí com relação a falta de materiais é só geralmente quando realmente acabou aquele que já foi comprado e que foi desgaste pelo uso, né? Não que eles façam um mau uso, mas tem materiais que não vem com tanta personalização por exemplo, vem com tanto que os materiais hoje não tá muito reforçado, né? Por exemplo, bolas de vôlei, eles nos intervalos na hora que você chegar lá na quadra eles estão jogando vôlei, aí acaba se desgastando mesmo como tudo se desgasta quando você usa com frequência. (Entrevista, PEE4)
O anfiteatro, existe na verdade os laboratórios especiais, existe aqui o próprio auditório, existe aqui o estacionamento que também pode ser utilizado, enfim, existe mais algum espaço? Eu vejo mais esses espaços…por ter a questão do espaço, acaba que dando a oportunidade do aluno poder usar sua imaginação e realizar as atividades assim que eles observam que se tornam legais para isso, entendeu? (Entrevista, PIF6)
E aí a minha escola é maravilhosa, porque tem a graduação de EF, então, a gente tem todos os equipamentos, todos os espaços, tudo que você quer imaginar, a gente tem pista de atletismo, tem campo de futebol, tem quadra de vôlei, de basquete, tem quadra de vôlei de área, tem piscina, tem sala de dança. Mulher a gente não reclama de nada, já viu. Agora, como toda a instituição pública, é tudo lindo? Não? Tem coisa sucateada, isso é normal, o normal e está tudo bem por causa disso, o que a gente consegue melhorar, a gente melhora. Está tão difícil o material do último governo pra cá, que eu fiz esse ano, eu montei um kit igual quando eu era professora da Escola Estadual e da Escola Municipal eu comprei meu kit de vôlei, meu kit de atividade recreativa, de bambolê, de corda… ainda pego emprestado de meus colegas. (Entrevista, PIF8)
Os espaços ofertados pelas escolas poderiam contemplar diversas vivências de lazer, sendo disponibilizados por meio de atividades para potencializar as formas de uso e apropriação destes pelos jovens e membros da comunidade escolar. Dessa forma, esses espaços poderiam tornar-se lugares de encontros, liberdade e reflexões, proporcionando a valorização e potencialização das relações humanas (Fonseca et al., 2015).
A análise das entrevistas nos revela que não existe ausência de espaço físico ou material nas escolas, ao contrário. Porém a formação profissional de alguns/as professores/as reforça o que percebemos ao longo dos relatos, no qual enfatiza determinados saberes e omite outros, destacando a mercantilização que persiste no meio educacional que pode favorecer interesses de determinados grupos. Nos estudos de Isayama e Melo (2014) os mesmos destacam que os discursos do lazer foram construídos por grupos de intelectuais, no qual exerceram o poder dominante envolvendo os corpos, os hábitos, os costumes e a cultura.
O lazer pode ser abordado dentro da escola com a finalidade de acrescentar a formação dos/as jovens, promovendo uma reflexão sobre a realidade a qual os sujeitos estão inseridos, apresentando e debatendo com toda a comunidade as questões pertinentes ao cotidiano, no qual estão inseridos. Os jovens através de suas vivências e experiências podem se desenvolver pessoalmente dentro do ambiente escolar e fora dele (Maia e Bezerra, 2021).
Percebemos no processo de análise, que através dos relatos dos entrevistados/as, que, parte dos cursos de graduação em EF não tratam o Lazer de forma concisa e efetiva, mas muitas das vezes de forma isolada, ou mesmo como algo atrelado a recreação, como retrata PEE1: "era muita coisa, era muitas indagações e dúvidas do que realmente é lazer”.
Com essa observação identificamos que existe uma carência de disciplinas específicas de Lazer, dentro da grade curricular dos cursos de EF, essa problemática acaba por corroborar com a dificuldade dos/as professores/as entenderem o lazer como algo para além da recreação. Essa problemática implica na formação acrítica sobre as questões que imbricam o lazer, se reverberando no seu modo de tratar a temática dentro da escola (Ungheri & Isayama, 2017).
Diante do exposto, observamos que os participantes da pesquisa apresentam certa preocupação no processo de formação para o lazer, a insuficiência ou ausências de um debate mais apurado na graduação torna a condição de trabalho com a temática pouco potente, demonstrando fragilidade na formação na escola de cidadãos/ãs para a usufruto do direito ao lazer.
Considerações Finais
O lazer está presente nas escolas de educação profissional do Ceará e tem suas condições estruturais garantidas, seja em seus documentos curriculares, em tempos de descanso e nas aulas. Contudo, ao analisar mais de perto pelos documentos e relatos de docentes atuantes, a questão é “como” ele se faz presente.
Na maior parte do tempo parece que o lazer tem sido apenas um descanso e escape de uma realidade voltada a um produtivismo e uma escola preocupada com formação para um mercado de trabalho neoliberal. Ele está em intervalos e aulas livres, mas alguns/mas docentes se preocupam com o trato pedagógico, seja ele transversal ou como unidade pedagógica.
O trabalho em tela analisou apenas um estado brasileiro e apenas oito escolas. Com certeza mais pesquisas podem ajudar a aprofundar nas questões aqui trabalhadas, inclusive para mais detalhes sobre diferenças de acesso e debate que envolvem questões de classe social, presença das comunidades na escola, interação com movimentos sociais, questões étnico-raciais e de gênero e sexualidade.
Embora o lazer enquanto prática voluntária e autônoma seja importante, especialmente em contexto de escolas de tempo integral, destacamos que ao considerar o papel social da escola isso não é suficiente. Precisamos assumir enquanto docentes o compromisso com a educação para o lazer, especialmente numa perspectiva de dar ferramentas para a transformação social, para a não reprodução mercadológica e para reflexões críticas. Garantir o direito ao lazer, não deve significar apenas acesso a tempos e espaços, mas a possibilidades de entendimento, de construção, de apropriação autônoma, de ressignificação e de empoderamento.
Declaración de autoría o roles de colaboración
Escritura – revisión y edición: Angélica Micena, Bruno Silva e Christiane Macedo.
Conceptualización, Investigación: Angélica Micena.
Metodología: Bruno Silva e Christiane Macedo.
Curadoría de datos: Angélica Micena, Bruno Silva e Christiane Macedo.
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Recepción: 11 Octubre 2025
Aprobación: 09 Marzo 2026
Publicación: 1 abril 2026