Educación Física y Ciencia, vol. 27, núm. 3, e337, julio-septiembre 2025. ISSN 2314-2561Artículos
Dinâmicas urbanas e identidades juvenis no skate: uma etnografia na pista da Orla do Guaíba
Resumo: Essa pesquisa tomou como centralidade as juventudes skatistas urbanas, um campo dinâmico e multifacetado que reflete a diversidade de experiências, práticas culturais e formas de socialização. Reconhecendo a pluralidade inerente ao conceito de juventude, este estudo adotou uma abordagem etnográfica para investigar as dinâmicas sociais e culturais que emergem na pista de skate da Orla do Guaíba, em Porto Alegre. Metodologicamente, o estudo se orientou por uma abordagem etnográfica, concentrando-se na referida pista de skate. Alguns dos achados da pesquisa apontaram para o entendimento de que a pista de skate da Orla do Guaíba se configura como um espaço plural, onde as diferentes modalidades de skate, como street, bowl e snake, são distintamente apropriadas pelos praticantes. A coexistência de dois grupos, a “old school” e os “novos skatistas”, evidencia que, embora compartilhem uma identidade skatista comum, há distinções marcantes em relação às suas vestimentas, gostos musicais e idades. Enquanto a velha guarda aprende e ensina através da observação e da convivência, com uma pedagogia implícita e coletiva, a presença de treinadores e a formalização do ensino para os novos skatistas refletem uma mudança significativa nas práticas de socialização e aprendizado. Essas transformações, embora causem estranhamento entre os mais antigos, apontam para uma coexistência de diferentes formas de entender e viver a prática do skate. Este espaço mais do que um lugar de prática esportiva, trata-se de um palco onde diferentes gerações e identidades se encontram, confrontam e coexistem, refletindo as transformações e permanências da cultura do skate.
Palavras-chave: Skate, Juventudes, Lazer, Esporte, Orla do Guaíba.
Urban dynamics and youth identities in skateboarding: an ethnography at the Orla do Guaíba skatepark
Abstract: This research focused on young urban skateboarders, a dynamic and multifaceted group that reflects a diversity of experiences, cultural practices and forms of socialisation. Recognising the plurality inherent in the concept of youth, this study adopted an ethnographic approach to investigate the social and cultural dynamics that emerge at the skate rink on the Orla do Guaíba waterfront in Porto Alegre. Methodologically, the study was guided by an ethnographic approach, focusing on this skate park. Some of the research findings point to the understanding that the skate park on the Orla do Guaíba is configured as a plural space, where distinct skateboarding modalities, such as street, bowl and snake, are adopted differently by skaters. The coexistence of two groups, the "old school" and the "new skaters", reveals that although they share a common skater identity, notable differences exist in terms of clothing, musical tastes and age. While the old guard learn and teach through observation and coexistence, with an implicit and collective pedagogy, the presence of coaches and the formalisation of teaching for new skaters reflect a significant change in socialisation and learning practices. Although these transformations might appear strange to the older skaters, they point to a coexistence of different ways of understanding and experiencing skateboarding. More than being just a site for sports practice, this space is a stage where different generations and identities meet, clash and coexist, reflecting the transformations and permanence of skateboarding culture.
Keywords: Skateboarding, Youth, Leisure, Sport, Orla do Guaíba.
Dinámicas urbanas e identidades juveniles en el skate: una etnografía en la pista Orla do Guaíba
Resumen: Esta investigación se centró en jóvenes skaters urbanos, un campo dinámico y multifacético que refleja la diversidad de experiencias, prácticas culturales y formas de socialización. Reconociendo la pluralidad propia del concepto de juventud, este estudio adoptó un enfoque etnográfico para investigar las dinámicas sociales y culturales que surgen en la pista de skate situada en la costanera Orla do Guaíba, en Porto Alegre. Metodológicamente, el estudio se orientó por un enfoque etnográfico, centrándose en esa pista de skate. Algunos de los hallazgos de la investigación apuntaron a la comprensión de que la pista de skate Orla do Guaíba se configura como un espacio plural, donde las diferentes modalidades de skate, tales como street, bowl y snake, se apropian de manera diferenciada por los practicantes. La coexistencia de dos grupos, la “old school” y los “nuevos skaters”, pone de manifiesto que, aunque comparten una identidad skater común, existen diferencias notables en cuanto a su vestimenta, gustos musicales y edades. Mientras que la vieja guardia aprende y enseña a través de la observación y la convivencia, con una pedagogía implícita y colectiva, la presencia de entrenadores y la formalización de la enseñanza para los nuevos patinadores reflejan un cambio significativo en las prácticas de socialización y aprendizaje. Estas transformaciones, aunque causan extrañeza entre los más veteranos, apuntan a una coexistencia de diferentes formas de entender y vivir la práctica del skate. Este espacio, más que un lugar para la práctica deportiva, es un escenario donde diferentes generaciones e identidades se encuentran, se enfrentan y coexisten, reflejando las transformaciones y permanencias de la cultura del skate.
Palabras clave: Skateboarding, Juventud, Ocio, Deporte, Orla do Guaíba.
Introdução
As juventudes urbanas constituem um campo dinâmico e multifacetado de pesquisa, refletindo a diversidade de experiências, práticas culturais e formas de socialização. É essencial, portanto, reconhecer a pluralidade inerente ao conceito de juventude, pois não há um único modo de ser e estar jovem no mundo contemporâneo (Dayrell, 2007). Ser jovem transcende uma definição rígida de idade, configurando-se como uma construção social que atravessa diversas situações, incluindo condições de classe, gênero, etnia, localidade e outros aspectos que foram o que se passou a denominar de “situação juvenil” (Abramo, 1997). Não é infrequente, também, que a sociedade enxergue a juventude como uma fase de transição, um estado temporário anterior à vida adulta, enfatizando um “vir a ser” e negando o presente vivenciado pelos jovens (Dayrell, 2007). Outra perspectiva comum é a idealização da juventude como um período de liberdade, erro e experimentação, caracterizado como uma moratória social (Margulis & Urresti, 1996).
O lazer, por sua vez, trata-se de um fenômeno social moderno e multifacetado, compreendido de diversas maneiras e atravessando múltiplas disciplinas. Ele pode ser visto como um espaço de descanso, diversão e desenvolvimento pessoal (Dumazedier, 1973), um meio de liberar tensões e buscar excitação para compensar o mal-estar civilizatório (Elias & Dunning, 2019), bem como uma mercadoria que reflete valores capitalistas, mas também um possível espaço de resistência e emancipação (Mascarenhas, 2005). Igualmente, o lazer pode se configurar como um espaço de passagem entre a vida privada e pública, onde se desenvolvem redes de sociabilidade (Magnani, 2024). No Brasil, as primeiras praças de esporte, recreação e lazer surgiram nas décadas de 1920 e 1930, consolidando o lazer como uma prática social importante (Mayer, Starepravo & Silva, 2010).
Dentro deste contexto, o skate se destaca como uma prática de lazer significativa, especialmente entre as juventudes que ocupam pistas, praças e ruas das cidades. O skate é uma prática corporal que envolve deslizamento e risco (Le Breton, 2007), sendo que os corpos vão produzindo significados diversos conforme as culturas, espaços e épocas. Em certa perspectiva, o gosto pelo extremo e pelo risco, característico do skate, representa uma resposta às pressões do mundo contemporâneo, oferecendo uma busca por sensações que contrasta com a monotonia e alienação da vida cotidiana. Surgindo de forma mais sistematizada a partir dos anos 1980, essas práticas buscam desafiar os limites físicos e, muitas vezes, expõem os praticantes a grandes esforços e perigos. Assim, o skate incorpora elementos de rebeldia, criatividade e sociabilidade, tornando-se um fenômeno cultural e um meio de expressão, pertencimento e resistência para muitos jovens que o praticam.
Ao ingressarmos no cenário urbano de Porto Alegre, nos encontramos com o “Parque Urbano da Orla do Guaíba”, um espaço que exemplifica o modelo contemporâneo de revitalização urbana que combina recursos públicos e privados. Este parque oferece uma variedade de instalações para lazer urbano, incluindo ciclovias, pistas de caminhada, quadras esportivas, arquibancadas para assistir ao pôr do sol, e a impressionante “megapista” de skate. Dentro deste contexto, a pista de skate do setor 3 desse parque se destaca como um marco significativo, sendo reconhecida como a maior pista de skate da América Latina. Com mais de 6 mil metros quadrados, a pista oferece cinco formatos distintos, incluindo três verticais (bowl, flow park e snake run) e duas modalidades street (plaza e flow) (Corrêa, 2021). Este estudo se insere neste cenário vibrante, explorando as dinâmicas sociais e culturais que emergem neste espaço urbano diversificado.
Além de ser um local de prática esportiva, a pista de skate da Orla do Guaíba também é um ponto de encontro social, atraindo uma ampla gama de praticantes, desde iniciantes até skatistas experientes. As diferentes modalidades de pistas permitem uma variedade de práticas e estilos, promovendo um ambiente inclusivo e dinâmico. No entanto, este espaço também é palco de disputas territoriais e de diferentes formas de ocupação, refletindo as complexas interações sociais e culturais que caracterizam os espaços públicos urbanos. Ao investigar essas dinâmicas, a pesquisa busca compreender como os jovens utilizam e se apropriam deste espaço para lazer e construção de suas identidades.
Esse texto forma parte dos resultados da pesquisa intitulada "Territórios do Skate na Orla do Guaíba: um estudo sobre lazer das juventudes", que tem como objetivo mapear e analisar as interações e identidades de jovens skatistas que frequentam a Orla do Guaíba, em Porto Alegre. A investigação se insere na linha dos estudos sobre juventudes e lazer, buscando compreender como as e os jovens se apropriam e utilizam os espaços urbanos para a construção de suas identidades e práticas culturais. Adotando uma abordagem etnográfica, a pesquisa emprega métodos qualitativos robustos, como a observação participante, entrevistas e diários de campo, para capturar a riqueza e a complexidade das práticas juvenis e relações espaciais sociais nesse contexto.
A literatura existente sobre o skate e suas subculturas destaca a diversidade e complexidade das práticas e identidades dos skatistas. Estudos anteriores revelam uma divisão entre diferentes estilos e modalidades, como o skate street e o skate park, e exploram a cultura urbana e as práticas de lazer, evidenciando particularidades e tensões dentro da comunidade skatista. Alguns estudos focam especificamente em grupos de skatistas em Porto Alegre. Bastos (2006) investigou o universo do skate profissional, com ênfase na pista do IAPI, enquanto Figueira (2008) analisou a participação de skatistas mulheres, destacando como elas se posicionam como sujeitos ativos em uma prática tradicionalmente dominada por homens. Rampazzo (2012) realizou uma extensa observação de nove meses em um grupo de skatistas na pista do IAPI. Noda e Pimentel (2015) exploraram as motivações e os pertencimentos de skatistas em várias cidades brasileiras, incluindo Porto Alegre, Maringá-PR e São Bernardo do Campo-SP, além de abordar os preconceitos enfrentados por esses grupos. Böes (2016) contribuiu com uma discussão sobre o urbano e os espaços da cidade a partir da prática do skate.
Apesar dessas contribuições valiosas, nenhum estudo até o momento se concentrou especificamente nas espacialidades dos grupos de skatistas que frequentam a pista da Orla do Guaíba. Este espaço, revitalizado e amplamente utilizado, oferece uma oportunidade única para observar e compreender as dinâmicas sociais e culturais emergentes entre diferentes tribos urbanas. Assim, esta pesquisa preenche uma lacuna na literatura existente ao focar na pista de skate da Orla do Guaíba, contribuindo para uma compreensão mais ampla das interações e identidades dos jovens skatistas em espaços urbanos compartilhados.
Ao longo da pesquisa, foi possível observar um fenômeno de estranhamento significativo: a pista de skate da Orla do Guaíba é ocupada por diferentes grupos de jovens que utilizam e interpretam o espaço de maneiras distintas. Surgem então questões importantes: Quem são essas pessoas? Por que elas usam diferentes áreas da pista? Como elas interagem e se distinguem umas das outras? Essas perguntas orientam o problema central da pesquisa, que é: quem são as juventudes e como elas atuam nos diferentes espaços da pista de skate da Orla do Guaíba? A partir dessa questão, busca-se compreender as dinâmicas de apropriação e as identidades que se formam em torno das práticas de skate neste espaço urbano.
Procedimentos metodológicos
Este estudo se caracteriza como uma etnografia urbana realizada junto à pista de skate da Orla do Guaíba, em Porto Alegre, uma mancha na cidade, no sentido de Magnani (2002), por onde circulam diferentes atores e grupos sociais, em grande parte jovens, mais ou menos interessados na cultura do skate como prática de lazer. Nesse espaço, procurou-se produzir estranhamentos tendo em vista as dissonâncias entre a cultura do pesquisador e a cultura “nativa”. De fato, os participantes do grupo de pesquisa não tinham experiências anteriores com a prática do skate, assim, deslocavam-se frequentemente ao espaço de modo a buscar entender as lógicas de funcionamento naquele espaço que faziam sentido para os jovens skatistas.
A prática sistemática e regular da etnografia (Magnani, 2009) - composta por observação participante, conversas informais, anotações, caderno de campo e registros fotográficos - se deu no período de dezembro de 2023 a abril de 2024, porém mais acentuadamente nos dois meses finais, os quais antecederam a grande enchente de Porto Alegre, que acabou por deixar debaixo de água1 a pista de skate da Orla do Guaíba durante praticamente todo o mês de maio. Assim, os dados aqui analisados dizem respeito aos 17 diários de campo produzidos no período que antecede a inundação.
A análise dos diários de campo direcionou a produção deste texto para as comparações entre os praticantes do skate street e os do skate park. O espaço da pista de skate é relativamente grande - trata-se da maior pista da América Latina, argumentam seus defensores -, sendo composto por diferentes pistas que possibilitam distintas formas de praticar o skate, demandam equipamentos e habilidades específicos, bem como são ocupadas - conforme nossas observações - por diferentes grupos de atores. Possivelmente, para um “nativo” essas diferenças sejam usuais, porém para os pesquisadores despertaram a atenção, foram objeto de estranhamento e possibilitaram compreender, para além do entendimento da não homogeneidade dos modos de ser skatista, que há disputas entre ao menos duas identidades skatistas que estão relacionadas ao espaço e que guardam elementos geracionais e simbólicos.
As categorias “old school” e “novos skatistas” emergiram como expressões nativas, recorrentes nas falas e interações dos próprios jovens que frequentam a pista de skate da Orla do Guaíba, em Porto Alegre. Não se tratam, portanto, de denominações elaboradas a priori pelos pesquisadores, mas de categorias empíricas, que se mostraram relevantes para compreender como os praticantes organizam distinções, identidades e pertencimentos no espaço etnográfico. A adoção dessas categorias no texto decorre de sua potência analítica, uma vez que permitem descrever e interpretar as interações entre gerações e identidades de skatistas e os modos como os jovens se posicionam no campo. Ressalta-se que, na etnografia, categorias nativas desempenham papel central, pois revelam significados construídos pelos próprios interlocutores, exigindo do pesquisador uma escuta sensível e atenta às nuances do trabalho de campo.
Os protocolos da pesquisa foram aprovados pelo Comitê de Ética para Pesquisas com Seres Humanos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob o parecer número 6.018.568. O texto a seguir apresenta, numa perspectiva indutiva - e, portanto, produzida a partir da imersão no campo e dos estranhamentos e experiências advindas empiricamente -, extratos dos diários de campo selecionados com vistas a uma noção de totalidade (Magnani, 2002), ou seja, na forma de categorias que apresentam um duplo estatuto: surgem empiricamente nos arranjos feitos pelos atores, bem como podem ser uma espécie de modelo capaz de ser aplicado a contextos distintos dos identificados inicialmente.
Resultados e discussão
Uma pista e duas espacialidades
Assumindo-se a noção de que o conceito de espacialidade se refere à maneira como os indivíduos e grupos sociais interagem com o espaço e como essas interações influenciam suas experiências e identidades, percebemos a abrangência da produção e reprodução do espaço através das ações, mobilidades, falas, gestos e relações dos sujeitos com seus ambientes (Cassab, 2013). Por exemplo, jovens de diferentes bairros de uma cidade vivenciam e utilizam o espaço urbano de formas variadas, dependendo de fatores como acesso a recursos, infraestruturas e serviços públicos. Enquanto jovens de áreas centrais podem usufruir de espaços culturais e de lazer diversificados, jovens de bairros periféricos frequentemente enfrentam limitações em sua mobilidade e acesso a esses bens. Essa distinção territorial reflete as desigualdades sociais e contribui para a perpetuação dessas desigualdades, influenciando as oportunidades e o reconhecimento social desses jovens.
Assim como o conceito de espacialidade diz respeito às diferenças na interação dos sujeitos com o espaço, percebem-se as divisões desses espaços de maneira distinta e significativa. O caso da pista de skate da Orla do Guaíba exemplifica essa diversidade de espacialidades, evidenciada logo na primeira incursão em campo: “Ao chegar na loja fomos atendidos pelo dono que passou a relatar seu convívio com as pistas e os skatistas. O dono da loja nos explicou que as pistas da orla são divididas em 3 modalidades: street, bowl e snake.” (Diário de campo 1, 21 dez. 2023)
A loja referida no diário de campo trata-se de uma das unidades de uma conhecida marca de lojas de produtos para skate, que possui duas lojas em São Paulo e duas em Porto Alegre, sendo uma dessas localizada justamente na pista de skate da Orla do Guaíba. Fomos recebidos pelo responsável da loja que, além de nos apresentar os produtos que vendem, nos comentou diversos aspectos sobre a pista, os sujeitos que ali transitam e demais informações iniciais. Dentre esses aspectos, ele ressaltou sobre o que chamou de "divisões" da pista, destacando a segmentação em diferentes modalidades: street, bowl e snake. Essa divisão reflete as diferentes práticas de skate, bem as distintas formas de interação e uso do espaço pelos skatistas, revelando as complexas espacialidades presentes nesse local.
Apresentamos essa divisão na adaptação da fotografia aérea que segue, demonstrando como diferentes áreas da pista são destinadas a práticas específicas de skate, refletindo a diversidade de usos e a interação dos skatistas com o espaço.

Torna-se igualmente importante destacar que as pistas modelo skate park da Orla do Guaíba são frequentadas por skatistas com diferentes níveis de habilidade e experiência. Essas pistas, conhecidas como bowl e snake, são especialmente projetadas para skatistas mais avançados, oferecendo velocidade e inclinações que permitem manobras complexas e de alta performance.
As pistas modelo skate parte (bowl e snake) foram entendidas pelo grupo como um modelo direcionado aqueles praticantes mais avançados, nessas pistas os skatistas lidam com a velocidade constantemente, pela sua forma o skatista consegue uma alta velocidade aliado a ângulo da pista é possível estabelecer com facilidade manobras onde o skatista tem mais liberdade de agir e realizar manobras. portanto os skatista daquelas pistas demonstraram mais habilidade como também um bom conhecimento e técnica sobre o skate. (Diário de campo 1, 21 dez. 2023)
Essas pistas são espaços onde os skatistas mais experientes demonstram sua habilidade técnica e domínio do skate. O grupo observou que nessas pistas, devido ao formato que favorece a velocidade e os ângulos acentuados, os skatistas têm a liberdade de executar manobras com precisão e fluidez. Essa capacidade indica ser fruto da destreza física dos praticantes, a partir de um grupo de conhecimentos mais aprofundados das características específicas dessas estruturas. Skatistas que frequentam essas pistas também podem ser aqueles mais reconhecidos por sua longa trajetória de prática e pela dedicação ao esporte, o que se reflete na fluidez de seus movimentos e na complexidade das manobras realizadas.
Observou-se, por outro lado, que a pista modelo street na Orla do Guaíba se destaca por sua configuração que simula ambientes urbanos, incorporando diversos elementos comuns encontrados nas ruas das cidades. Em um diário, anotamos que “a pista modelo street é bem mais ampla e possui diversos objetos que são comuns no meio urbano. Na Pista street a movimentação é maior não somente de pessoas andando, mas como de grupos parados conversando no meio da pista.” (Diário de campo 1, 21 dez. 2023).
A pista modelo street se diferencia das pistas tipo skate park pela sua estrutura mais ampla e pela presença de objetos urbanos característicos. Essa ambientação contribui para uma dinâmica diferente de utilização do espaço, onde não apenas os skatistas circulam, mas também grupos de pessoas se reúnem para conversar e interagir. A movimentação intensa e a presença de elementos urbanos na pista street tendem a replicar as condições encontradas nas ruas das cidades, influenciando em certa medida o comportamento dos frequentadores. Ao permitir que algumas pessoas que praticam o skate parem para conversar no meio da pista, a estrutura da pista street desafia os skatistas e, ao mesmo tempo, pode criar um ambiente propício para a socialização e a convivência entre diferentes grupos. Essa característica pode ser lida como o reflexo de uma adaptação física do espaço e além, como também uma adaptação cultural e social, na qual a pista não é apenas um local para a prática do skate, mas também um espaço urbano vivo e dinâmico, integrado ao cotidiano das juventudes que frequentam a Orla do Guaíba.
É importante também observar como os diferentes modelos de carrinho ou skate refletem as preferências dos frequentadores da pista da Orla do Guaíba. Cada modelo pode atrair distintos tipos de praticantes, influenciando a dinâmica de uso e interação no espaço e (re)produzindo outras espacialidades. “Nas primeiras impressões, jovens tendem a utilizar mais o [carrinho/skate] modelo street enquanto os demais modelos tendem a manter um grupo mais old school” (Diário de campo 4, 07 mar. 2024).
Há uma divisão inicial entre os jovens que frequentam a pista, destacando que os modelos de carrinho ou skate do tipo street são mais utilizados por eles, enquanto outros modelos são associados a um grupo mais "old school". Essa observação inicial sugere uma diferenciação no tipo de equipamento utilizado, bem como possíveis diferenças nas práticas e na cultura dos skatistas que frequentam a área. A preferência por modelos específicos pode indicar uma questão de estilo ou de preferência pessoal, mas também de aspectos culturais e históricos dentro da comunidade de skatistas. A adoção de um modelo como o street pode estar associada a tendências contemporâneas e à influência de marcas e mídias atuais, enquanto a escolha por modelos "old school" pode refletir uma ligação com a história do skateboarding e um estilo de vida mais tradicional dentro da cultura skatista. Percebemos que essas distinções, ao moldarem a dinâmica de uso da pista e contribuírem para a formação de identidades e subculturas entre os praticantes, formam uma espacialidade própria, influenciando suas interações e a maneira como ocupam e vivenciam o espaço urbano da Orla do Guaíba.
Diógenes (2013), em seu estudo sobre arte urbana e graffiti, discute como os jovens artistas urbanos utilizam a cidade como espaço de expressão e apropriação, transcendendo limites físicos e geracionais. Assim como os skatistas na Orla do Guaíba, esses artistas urbanos transformam espaços públicos em arenas criativas, onde diferentes estilos e formas de expressão cultural se manifestam. A preferência por determinados modelos de carrinho ou skate pode ser vista como uma forma de marcar identidades dentro da comunidade skatista, semelhante ao modo como os grafiteiros usam seus estilos para criar uma assinatura visual nas paisagens urbanas. Além disso, Sales (2013) explora o significado do lazer para jovens de diferentes contextos sociais, evidenciando a importância dos grupos na construção de experiências de lazer e na ocupação do tempo livre. Na pista da Orla do Guaíba, os jovens skatistas fazem a prática construindo interações sociais significativas. A divisão entre modelos de pistas pode refletir preferências grupais e identitárias que se formam em torno desses espaços de lazer compartilhados. Assim como nos estudos de Sales (2013), onde o lazer é entendido como uma prática coletiva que une jovens em diferentes ambientes, os skatistas da Orla do Guaíba utilizam a pista para o esporte e como um lugar de encontro e afirmação de identidades sociais e culturais.
Os diários de campo destacam as preferências dos skatistas por diferentes modelos na Orla do Guaíba, indicando que jovens tendem a utilizar mais o modelo street em comparação com outros modelos, que são associados a um grupo mais tradicional. Silva e Adad (2017), ao investigarem o que os jovens skatistas de Luís Correia – PI aprendem através do movimento e da prática do skate, utilizando a sociopoética para explorar os "confetos" (conceito + afeto) produzidos por eles sobre aprender na relação com o movimento. Esses jovens skatistas além de dominarem habilidades físicas, constroem saberes corporais e resistências frente às normas convencionais de aprendizagem, conforme revelado em suas reflexões sobre como o skate contribui para uma educação do corpo em movimento.
Analisando esses pontos em conjunto, percebemos que tanto os skatistas na Orla do Guaíba de Porto Alegre (RS) quanto os de Luís Correia (PI) utilizam o skate como uma prática que desafia e transforma espaços educativos e culturais. Enquanto a presente pesquisa tem revelado a dinâmica de grupo e as preferências individuais na pista, Silva e Adad (2017) destacaram como o movimento do skate permite aos jovens explorar novas formas de aprender e de se relacionar com o ambiente urbano. Ambos os estudos apontam o skate como uma atividade de lazer e, também, como uma forma de expressão cultural e de resistência, na qual essas juventudes desenvolvem habilidades corporais e aprendizados significativos que transcendem as formas tradicionais de educação formal.
Ao dialogar com o conceito de espacialidade, conforme Cassab e Mendes (2011), percebemos que os skatistas, além de ocupar fisicamente as pistas, as reinventam através de suas habilidades e interações sociais. As autoras argumentam que o espaço urbano é dinâmico e moldado pelas práticas sociais dos indivíduos que o habitam, conferindo-lhe significados e vivacidade. Essa perspectiva enriquece a compreensão das práticas dos skatistas, que utilizam as pistas para a prática corporal, mas também para a construção de identidade e pertencimento. Ao perderem-se nas manobras e na socialização dentro desses espaços, os skatistas encontram desafios e uma forma de conexão com a cidade que os circunda. Assim, a análise conjunta desses estudos revela como o skate mobiliza o corpo dessas juventudes, bem como suas aspirações e modos de ver e interagir com o ambiente urbano, demonstrando que a espacialidade é tanto um produto quanto um meio de transformação social e cultural na contemporaneidade.
A “old school” e os “novos skatistas”
Identidades skatistas
Como apontado anteriormente, percebeu-se em campo a coexistência de dois grupos com características diferentes em ação simultaneamente na pista da Orla do Guaíba. Esses grupos, ainda que compartilhassem de uma “identidade skatista”, nitidamente distinguiam-se em relação às suas vestimentas, em relação aos gostos musicais e em relação à idade. Enquanto os indivíduos pertencentes à “old school” frequentavam principalmente os espaços da pista park (bowl e snake), eram mais velhos e escutavam rock, reggae e rap; os “novos skatistas” formavam um grupo mais diverso em relação às roupas e as preferências musicais, eram mais jovens e ocupavam principalmente a pista street da Orla.
[...] foi perceptível uma clara diferença entre os skatistas que estavam na pista street e os da pista bowl, os skatistas da pista street pareciam ser em sua maioria jovens, vestiam calça jeans ou calça cargo, tênis usavam All Star, Vans e Air Jordan. E em sua maioria camisa oversized, um estilo urbano bem contemporâneo. Enquanto os skatistas da pista bowl pareciam ser mais velhos, utilizavam camisas de bandas de rock ou camisas mais básicas com cores mais escuras, o grupo que utilizava a pista bowl utilizava um estilo mais próximo aos estilos dos anos 2000, principalmente ligados à cultura do rock. (Diário de campo 2, 15 fev. 2024)
Optei por ir até o caixote da Orla onde pude me sentar na sombra, fiquei um tempo ali parado observando o movimento e a divisão dos grupos já cedo me chamou a atenção de um grupo mais ligado ao rap/trap. Com visuais muitos mais ligados aos estilos do hip hop, basket e trap, algo perceptível também foi a presença de skatistas negros em maior número e formando esse grupo. (Diário de campo 8, 22 mar. 2024)
Os dados mostram que a relação com a proteção também era um elemento de distinção entre os grupos, já que os ocupantes da velha guarda ocupavam principalmente as pistas park, nas quais as manobras envolvem, por vezes, alturas que podem trazer riscos de machucados aos praticantes.
Os ocupantes da pista street tinham um perfil mais jovem e tinham o costume de usar menos proteção, enquanto os ocupantes das demais pistas normalmente eram pessoas mais velhas e tinham o costume de utilizar mais proteções. Nas demais pistas, na pista snake, também foi visto um senhor dando ajudas e conselhos para os demais skatistas, principalmente sobre como andar na pista snake, buscando ter a melhor performance. Outro diferencial entre os skatistas do snake e do street também foi a forma como eles escutavam músicas, os da pista street normalmente utilizavam fones sem fio enquanto na pista snake havia um som e uma caixa de som tocando principalmente reggae e raps dos anos 2000. (Diário de campo 3, 05 mar. 2024)
Além das diferenças em relação às preferências por determinados ritmos musicais e artistas, foi possível perceber que as formas de escutar música se davam de modo distinto, já que era comum observar skatistas da old school escutando em caixas de som, enquanto via-se frequentemente os novos skatistas usarem em fones de ouvido. Este elemento parece indicar que os grupos entendem e atuam de modo diferente no que se refere às relações sociais. Enquanto a música é um instrumento de socialização, de construção de laços identitários e de traços de comunidade para o primeiro grupo, para o segundo escutar música é uma forma de se encapsular e de produzir uma individualidade. Inferimos que esse traço distintivo pode ter relação com elementos geracionais, já que os dados mostram o uso de diferentes tecnologias entre os grupos, bem como as “ajudas e conselhos” de skatistas mais experientes. Apesar disso, a categoria geração parece não dar conta de explicar os grupos que, entende-se, são mais bem explicados em função daquilo que denominamos como traços identitários.
A identidade cultural, para Hall (2006), não é algo estático ou essencialista, mas um processo em constante mudança. O autor percebe-a como formada através de práticas sociais e discursivas nas quais diferentes influências culturais se entrelaçam e se transformam ao longo do tempo. Desse modo, as identidades culturais são construídas através de negociações e articulações complexas entre indivíduos e grupos, e são moldadas por questões de poder, representação e resistência.
As preferências musicais parecem ser um elemento muito importante para a identidade skatista, principalmente pelo grupo old school. É possível pensar mesmo no uso de fones de ouvido individuais como uma estratégia de skatistas para se sentirem confortáveis em escutar outros ritmos musicais - poderiam se sentir constrangidos em escutar publicamente outros ritmos/gostos musicais -, já que o estereótipo de skatista está historicamente associado à identidade da velha guarda (old school) e, como mostra a pesquisa de Brandão (2006, p. 17).
[...] é possível detectar traços de uma cultura que se quer “rebelde”, ou seja, skatistas vestidos com roupas bastante diferentes dos esportistas tradicionais, nada de uniformes de equipe, mas sim calças jeans desbotadas e surradas, cintos com rebites, braceletes, cabelos compridos, raspados ou desgrenhados, símbolos que remetem à contracultura, ao movimento punk, a formas de contestação. Desenhos ousados, gestos provocativos, cores inusitadas. Visualmente, o skate se apresenta como diferente dos esportes mais tradicionais, que remetem a um espírito de equipe e competição.
Os diários produzidos na pista de skate da Orla do Guaíba incluem, na observação da old school, alguns desses elementos.
Com poucas pessoas na pista street, resolvi me atentar mais a um grupo que eu já tinha percebido que frequentava a pista snake. Esse grupo é composto por pessoas um pouco mais velhas, na média dos 30 anos de idade. Resolvi pegar alguns relatos [...] do grupo que pratica o surf skate normalmente em pistas snake, cujo shape parece uma prancha de surf. O primeiro entrevistado [...] é um homem que pratica skate há um tempo. Will relatou que a snake [...] é uma pista para quem pratica de forma mais profissional, o estilo musical do grupo que está na snake é rap, reggae e rock dos anos 2000 - eles afirmaram que a banda que representa o skate é o Charlie Brown e que os estilos que representam o skate são hip-hop, trap, rap e reggae, estilos ligados à cultura de rua. Charlie Brown Jr. é uma banda historicamente ligada à cultura de rua e ao skate, uma banda de rock, mas que misturava ritmos do rap. Foi possível perceber que o grupo pertencia a uma ‘velha guarda’ do skate, assim que me atentei a escutar as músicas que tocavam durante a entrevista percebi que se tratava do Biggie, um rapper da East Cost que foi sucesso nos anos 1990. [...] Adu [...] me contou que pratica skate há 30 anos, seu relato se apresentou saudosista, principalmente dos anos 1980 e 1990, que ele considera as melhores épocas. Adu relatou a existência de rivalidade e até mesmo de conflito entre “tribos”. Will também tinha dito que existia uma diferença entre as modalidades e os praticantes, mas em seu relato ele frisou muito mais uma separação entre os usuários da pista street e das demais pistas, dando sentido a uma divisão territorial, alegando que apesar de serem unidos como skatistas eles não fazem parte do mesmo grupo, como uma subcultura dentro da cultura do skate. Adu disse que normalmente existe um conflito entre as modalidades, que as pessoas do street não gostam de quem pratica o modelo surf, as pessoas do modelo surf não gostam das pessoas que praticam o modelo longboard etc. (Diário de campo 4, 07 mar. 2024)
Há mesmo críticas por parte de indivíduos pertencentes aos grupos tradicionais do skate em relação a outros e novos modos de ser skatista. Como citaram os interlocutores, há uma separação entre os grupos que não se trata somente do espaço físico das pistas street e park, mas que disputa os modos corretos de ser skatista. A evocação aos anos 1980 e 1990 como os melhores, a crítica (sutil) a skatistas que escutam outros ritmos musicais e ao tamanho/estilo do shape como um elemento de diferenciação ajudam a entender aqui a coexistência de, ao menos, duas culturas que, relativamente, contrastam no território da pista de skate da Orla do Guaíba e que disputam, nos modos de agir e na produção de críticas, as características que consideram adequadas para serem associadas às identidades skatistas.
Olimpíadas e profissionalismo
A discussão sobre a esportivização do skate vem à tona na crítica de Adu, integrante da velha guarda, aos novos skatistas. Segundo ele, o skate “vem perdendo sua essência”.
Ele também fez uma certa crítica às Olimpíadas e ao acesso que alguns grupos estão tendo principalmente ligado ao modelo street e ao modelo bowl. Ele afirmou que seria interessante que houvesse mais modalidades [nas Olimpíadas], principalmente a modalidade surf que é que ele pratica. [...] Outra crítica de Adu foi [...] em relação à forma como o skate está sendo vivenciado, de acordo com ele o skate vem perdendo sua “essência” e se tornando uma “moda”. Como se o skate perdesse uma origem anárquica e estivesse pouco a pouco se tornando algo mais visual, mais comprável; algo mais sistemático e menos rebelde. [...] Outro ponto levantado foi a profissionalização do skate, contou sobre pais que trazem crianças pequenas para praticarem o skate e cobram dessas que pratiquem de forma mais profissional. Edu afirmou que o skate não tem relação com essas questões de marcas e de profissionalismo; de acordo com ele isso tem tirado o skate de seu local e criando uma forma de vivenciar o skate mais ligada a marcas e a produtos, assim como a profissionalização está fazendo alguns pais e skatistas observarem essa prática como uma profissão. (Diário de campo 4, 07 mar. 2024)
De fato, o skate foi incluído no rol de modalidades esportivas dos Jogos Olímpicos pela primeira vez em 2021, quando da Olimpíada de Tóquio, e o sucesso foi estrondoso. No Brasil, o fenômeno “fadinha Rayssa” despertou nas juventudes e nas meninas o desejo e a possibilidade de ser skatista. Em alguma medida, esse fenômeno ajudou a uniformizar as regras, pontuações e formatos das competições (esportivas) de skate no mundo, o que poderíamos considerar como uma etapa importante do processo de esportivização do skate.
Elias e Dunning (2019) se dedicaram a analisar o processos de transformação de jogos e passatempos em esportes, principalmente na Inglaterra no século XVIII e, com isso, buscaram entender os elementos que possibilitaram que naquela configuração social surgissem práticas sociais uniformizadas e com um nível relativamente controlado de violência, com vistas a mimetizar sentimentos reprimidos cotidianamente nas relações sociais e a oferecer um antídoto para o tédio cotidiano por meio de atividades de lazer. De modo geral, esse processo de esportivização se deu em paralelo ao processo de parlamentarização e industrialização da sociedade, bem como relacionou-se a uma sensibilidade em relação à violência e a uma necessidade de libertar impulsos reprimidos no mal-estar cotidiano.
Transformar uma prática corporal urbana, de ocupação, resistência e contracultura gerou resistências em determinados grupos, principalmente aqueles próximos à old school. Esportivizar, para eles, não significava apenas uniformizar regras, formatos e possibilitar lucros, mas seria uma forma de transformar uma certa cultura do skate e as identidades a ele associadas. Seria transformar uma prática de resistência em um esporte, trazendo os sentidos de competição, recorde, treinamento e cientificismo; mas também de reprodução da lógica do capital, de especialização de papéis e de profissionalização de atletas e treinadores (Guttmann, 1978). Tais elementos, ainda que possibilitem a popularização da prática do skate, destoam dos sentidos que esses grupos concedem à modalidade.
Assim, a possibilidade de tornar-se um atleta de skate - e não apenas praticante de lazer - vem tensionando os modos de ser skatista. Há, nessa configuração, grupos de jovens que se vestem de modo diferente e que ouvem outros ritmos musicais, bem como de pais interessados em treinar seus filhos com vistas a, quiçá, ajudá-los a tornarem-se atletas esportivos, não “apenas” skatistas.
A configuração esportiva contemporânea, ao incluir o skate entre as modalidades olímpicas, vem transformando a cultura do skate, de modo a popularizar o skate entre certas juventudes, porém, ao mesmo tempo, modificando elementos da cultura do skate de modo a manter traços que eram considerados “essenciais” dos skatistas como periféricos, por vezes desnecessários e pertencentes principalmente a grupos da velha guarda.
Uma pedagogia do skate
Por fim, outro elemento empírico que auxiliou a entender os modos de ser skatista trata-se das formas de aprender e ensinar a andar de skate. Enquanto pais, professores e treinadores aparecem para mediar aprendizados na pista street e junto aos grupos de novos skatistas; a observação, as dicas e a presença de skatistas mais experientes é o modo de operar mais comum junto aos grupos da velha guarda.
Olhando para os shapes pude perceber a presenças dos modelos surf, incomuns na parte da pista street e ligados normalmente a grupos oldschool. Ao sentar com eles, fui recebido com uma conversa sobre antigos usuários do surf, modalidade que a princípio foi muito comum em Porto Alegre décadas atrás, tendo como referência as pistas do IAPI e do Marinha. Outro ponto levantado pelo grupo foi o confronto estabelecido com a idade: os mais velhos reclamavam com os mais jovens das dificuldades que a idade impõe sobre os corpos dos skatistas, levantando como o skate pode exigir dos skatistas uma jovialidade. É interessante notar como o papel do skatista vai se modificando com o passar dos tempos; com o avanço da idade os skatistas podem passar a exercer um papel muitas vezes maior de professor do que de praticante. É comum ver na Orla que os skatistas mais velhos tendem a exercer um papel de assessoria aos skatistas mais jovens. Esse papel surge com a capacidade e o conhecimento adquirido por este skatista, cabendo a ele muitas vezes guiar os novatos pela Orla e pela pista. Esse papel de guia pode ser estabelecido muitas vezes por um profissional pago, como por um skatista mais experiente que busca auxiliar os mais jovens na prática. [...] Isso também aliado a um conhecimento sobre a pista: saber onde é melhor realizar qual manobra, onde andar, tudo isso pode [...] significar muito para um skatista que, por exemplo, esteja preso em uma manobra e, com uma dica, pode acabar conseguindo realizá-la. Como exemplo, um dos skatistas que ensinava o outro a manobra seu skate usando seu corpo, usando a explicação de mudar o eixo do tronco, assim, facilitando o trajeto sobre a pista e suas subidas, ao ver que o skatista não conseguia seguir suas dicas houve uma modificação no ensino. O skatista que guia passou a focar na posição dos pés pedindo para que o skatista passasse a deixar dois pregos para fora do pé, demonstrando uma capacidade pedagógica ao lidar com o seu aluno. Outra lição muito importante repassada pelo skatista foi a forma como usar as proteções para não se lesionar, assim o skatista se jogava no chão para demonstrar para o outro a forma correta de cair durante o seu trajeto, para minimizar o perigo da queda. (Diário de campo 10, 26 mar. 2024)
Conforme ensina Wacquant (2002), ao analisar seu percurso etnográfico - de corpo e alma - no aprendizado do boxe, ainda que haja ensinamentos por parte do mestre, o aprendizado naquele caso se dava a partir de uma “pedagogia implícita e coletiva” (p. 120). Em outras palavras, ainda que houvesse dicas, conselhos, instruções e ordens, isso não era suficiente para aprender a lutar. Era necessário ser aceito, aprender a estar, aprender a conviver, conhecer as regras sociais e as etiquetas, conhecer os barulhos e os silêncios daquele espaço. Dessa forma, nem tudo era dito, muito se aprendia por imitação, vendo os outros fazerem e buscando repetir. Era uma forma de pedagogia implícita, no sentido de que nem tudo o que acontecia lá era dito pelo mestre ou pelas colegas, mas era visto, sentido e percebido pelo lutador em formação. Na mesma lógica, o aprendizado era coletivo; ainda que o boxe seja uma modalidade individual - como é o skate -, não se aprende sozinho, há de se conversar, de imitar e desafiar o outro, de ver onde ele acerta e onde erra. Enfim, de se aprender na convivência e no olhar atento ao que o outro faz.
Na pista de skate parece se aprender de modo parecido. Os skatistas observam, analisam, planejam, pedem dicas, conversam, trocam experiências etc. O aprendizado é implícito e coletivo. No caso do skate, o professor ou treinador na pista ensinando crianças e jovens parece ser uma novidade. Os skatistas da velha guarda estranham a presença e a atuação desse personagem. Nunca foi assim, pensam. Alguns culpam os Jogos Olímpicos, a esportivização e o desejo de profissionalização de alguns jovens que, segundo eles, não entenderam os sentidos daquela prática. De todo modo, os estranhamentos e as críticas apresentadas nos diários parecem mesmo mostrar uma transformação dos modos de aprender e ensinar skate em uma direção esportiva/atlética.
Não restam dúvidas, porém, que ainda que haja mudanças nas formas de aprender e ensinar, não há pedagogia que se sustente nela própria, de forma isolada do ambiente em que ela está inserida. Os aprendizados produzidos a partir das socializações nas pistas de skate seguirão acontecendo. Em tempo, as mudanças observadas na pedagogia do skate parecem reforçar a coexistência dos grupos e dos significados que eles atribuem à prática do skate.
Considerações finais
Essa pesquisa tomou como centralidade as juventudes skatistas urbanas, um campo dinâmico e multifacetado que reflete a diversidade de experiências, práticas culturais e formas de socialização. Reconhecendo a pluralidade inerente ao conceito de juventude, este estudo adotou uma abordagem etnográfica para investigar as dinâmicas sociais e culturais que emergem na pista de skate da Orla do Guaíba, em Porto Alegre. Compreendendo a juventude como uma construção social que atravessa diversas situações e contextos, a pesquisa se propôs a explorar como os jovens se apropriam deste espaço urbano para lazer e construção de suas identidades.
Metodologicamente, o estudo se orientou por uma abordagem etnográfica urbana, concentrando-se na pista de skate da Orla do Guaíba, em Porto Alegre. Esse espaço foi observado como um ponto de confluência de diferentes atores e grupos sociais, majoritariamente jovens, com variados níveis de envolvimento na cultura do skate. Neste sentido, a pista de skate, caracterizada por sua diversidade de modalidades e estilos, se apresenta como um ponto de encontro social e cultural, onde diferentes grupos de jovens interagem e disputam territórios, refletindo as complexas interações que caracterizam os espaços públicos urbanos. A pesquisa buscou produzir estranhamentos a partir das dissonâncias entre a cultura dos pesquisadores e a dos participantes "nativos".
Alguns dos achados da pesquisa apontaram para o entendimento de que a pista de skate da Orla do Guaíba se configura como um espaço plural, onde as diferentes modalidades de skate, como street, bowl e snake, são distintamente apropriadas pelos praticantes. A diversidade de espacialidades é observada nas interações, mobilidades e práticas dos skatistas, revelando uma segmentação do espaço que reflete e reforça identidades e habilidades específicas. Skatistas mais experientes tendem a ocupar as áreas destinadas ao bowl e snake, que demandam maior técnica e permitem manobras de alta performance, enquanto a pista street, com sua configuração que simula o ambiente urbano, é preferida por um público mais jovem e diversificado, servindo não apenas para a prática do skate, mas também como um espaço de socialização intensa. Essa dinâmica evidencia a complexidade das relações sociais e culturais que permeiam a pista, destacando como os diferentes usos e apropriações do espaço contribuem para a construção de identidades juvenis e para a (re)produção de desigualdades sociais e culturais.
Por outro lado, foi possível produzir discussões que ilustram a complexidade e a diversidade dos modos de ser skatista na pista da Orla do Guaíba. A coexistência de dois grupos, a “old school” e os “novos skatistas”, evidencia que, embora compartilhem uma identidade skatista comum, há distinções marcantes em relação às suas vestimentas, gostos musicais e idades. Os dados mostram que, enquanto os skatistas da old school preferem a pista park e estilos musicais como rock, reggae e rap, os novos skatistas ocupam majoritariamente a pista street e possuem uma variedade maior de preferências musicais, vestindo-se de maneira mais contemporânea e urbana. As observações de campo revelaram também que a música desempenha um papel importante na construção das identidades desses grupos. Enquanto a old school utiliza caixas de som para escutar música, promovendo uma socialização e construção de laços identitários, os novos skatistas preferem usar fones de ouvido, o que pode indicar uma tendência à individualidade. Essa diferença pode ser atribuída a elementos geracionais e ao uso de tecnologias distintas, mas também a traços identitários específicos de cada grupo.
A pedagogia do skate também se transforma nesse contexto. Enquanto a velha guarda aprende e ensina através da observação e da convivência, com uma pedagogia implícita e coletiva, a presença de treinadores e a formalização do ensino para os novos skatistas refletem uma mudança significativa nas práticas de socialização e aprendizado. Essas transformações, embora causem estranhamento entre os mais antigos, apontam para uma coexistência de diferentes formas de entender e viver a prática do skate.
Os jovens skatistas que frequentam a pista da Orla do Guaíba são os protagonistas de uma rica tapeçaria cultural, tecida com suas manobras, músicas e estilos distintos. Este espaço mais do que um lugar de prática esportiva, trata-se de um verdadeiro palco onde diferentes gerações e identidades se encontram, confrontam e coexistem, refletindo as transformações e permanências da cultura do skate. Assim, o skate na Orla transcende a noção de esporte ou de exercício físico, tornando-se um veículo de expressão, resistência e conexão entre os indivíduos. Em cada giro e deslize, esses jovens constroem e reinventam seus mundos, mostrando que o skate é, acima de tudo, uma celebração contínua da liberdade e da criatividade. Afinal, na trilha do skate, cada manobra é um passo rumo à autenticidade, onde o caminho se faz ao rodar das rodas e ao ritmo dos sonhos.
Agradecimentos
O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul - FAPERGS.
Roles de colaboración
Daniel Giordani Vasques y Victor Hugo Nedel Oliveira: Escritura – revisión y edición.
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Notas
Recepción: 29 Abril 2025
Aprobación: 30 Junio 2025
Publicación: 01 Julio 2025