EFYC Educación Física y Ciencia, vol. 27, núm. 3, e335, julio-septiembre 2025. ISSN 2314-2561
Universidad Nacional de La Plata
Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación
Departamento de Educación Física

Artículos

Futebol callejero e gênero: conhecendo as produções científicas do Brasil

Andressa Vieira Allet
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Brasil
Carolina Caneva da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Brasil
Ariane Corrêa Pacheco
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, Brasil
Bruna Tassiane dos Santos Pontes
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Brasil
Raquel da Silveira
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Brasil
Cita sugerida: Allet, A. V., da Silva, C. C., Pacheco, A. C., Pontes, B. T. S. y da Silveira, R. (2025). Futebol callejero e gênero: conhecendo as produções científicas do Brasil. Educación Física y Ciencia, 27(3), e335. https://doi.org/10.24215/23142561e335

Resumo: Brasil: ‘o país do futebol’! Mas sobre qual futebol está sendo mencionado quando se fala sobre isso? Desconfortadas com essa indagação, buscamos nos aproximar dos chamados ‘futebóis invisíveis’ e das ‘invisíveis do futebol’. O objetivo foi compreender as pautas e debates que os estudos realizados no Brasil abordam sobre a prática do Futebol Callejero e gênero. Para isso foi feito uma pesquisa por artigos, dissertações e teses realizado nas seguintes bases de dados: Oasisbr, Capes Periódicos, Capes Teses e Dissertações, Lume UFRGS e Scielo. Após um garimpo dentre os estudos brasileiros sobre o Futebol Callejero e gênero, questões como processos educacionais, âmbitos de diálogo e escuta, bem como, esporte social e prática mista, foram algumas das pautas trazidas pelos trabalhos encontrados. Por fim, constatamos que ainda é muito incipiente a produção acadêmica brasileira sobre o Futebol Callejero, em especial, quando abordamos a participação e atuação de meninas e mulheres.

Palavras-chave: Futebol Callejero, Gênero, Brasil.

Futebol callejero and gender: Understanding scientific productions in Brazil

Abstract: It is often said that Brazil is ‘the country of soccer’. But which soccer is being referred to? Called upon by this question, this research sought to approach the so-called ‘invisible soccers’ and the ‘invisible ones in soccer.’ The objective was to understand how the agendas and debates addressed by studies conducted in Brazil deal with the practice of Futebol Callejero and gender. To this end, a search was conducted for articles, dissertations, and theses in the following databases: Oasisbr, Capes Periodicals, Capes Theses and Dissertations, Lume UFRGS, and Scielo. After reviewing through Brazilian studies on Futebol Callejero and gender, issues such as educational processes, realms of dialogue and listening, social sport and mixed practice, were some of the topics brought up by the works found. Finally, the findings reveal that Brazilian academic production on Futebol Callejero is still in its infancy, especially regarding the participation and involvement of girls and women.

Keywords: Futebol Callejero, Gender, Brazil.

Fútbol callejero y género: conociendo las producciones científicas de Brasil

Resumen: A menudo se dice que Brasil es “¡el país del fútbol!” Pero, ¿de qué clase de fútbol se habla? Interpeladas con esta pregunta, nos acercamos a los llamados “fútboles invisibles” y a las “invisibles del fútbol”. El objetivo fue comprender las agendas y los debates que los estudios realizados en Brasil abordan sobre la práctica del fútbol callejero y el género. Para ello, se realizó una investigación de artículos, disertaciones y tesis en las siguientes bases de datos: Oasisbr, Capes Periódicos, Capes Tesis y Disertaciones, Lume UFRGS y Scielo. Después de una búsqueda en los estudios brasileños sobre fútbol callejero y género, cuestiones como procesos educativos, ámbitos de diálogo y escucha, así como deporte social y práctica mixta, fueron algunos de los temas tratados en los trabajos encontrados. Finalmente, constatamos que la producción académica brasileña sobre el fútbol callejero aún es muy incipiente, especialmente cuando se trata de la participación y actuación de niñas y mujeres.

Palabras clave: Fútbol Callejero, Género, Brasil.

1. Introdução

Brasil, o país do futebol! Mas sobre qual futebol está sendo mencionado quando se fala sobre isso? Um futebol “plural” ou “singular”? Um futebol de quem e para quem? Um futebol inclusivo ou exclusivo (no sentido amplo do significado dessa palavra “exclusivo”, o que exclui e o que prioriza)? A frase com que iniciamos esse estudo escutamos desde criança e ainda é reforçada nos dias atuais como algo forte em nossa cultura brasileira. Ela pode nos dizer muitas coisas, trazendo reflexos diversos em nossa sociedade, inclusive um amplo campo de “controle”, de “poder” e de política.

Em 1941, por exemplo, o Conselho Nacional de Desportos, a partir do Decreto-Lei nº 3.199 proibiu às mulheres a prática do futebol e de alguns outros esportes uma vez que eram “incompatíveis com as condições de sua natureza” (Brasil, 1941). Esse decreto só foi revogado no ano de 1979, e de lá para cá a prática de futebol por mulheres é uma luta que busca destituir diversas barreiras e construir estratégias para que o chamado ‘País do futebol’ não seja o país do futebol dos homens. Goellner (2021) apontou algumas das “descontinuidades, resistências e resiliências” (p. 1) que mulheres no Brasil enfrentaram para poder vivenciar o futebol.

Neste sentido, as questões que envolvem gênero e futebol são centrais no contexto brasileiro. Entende-las tonou-se uma forma de dar visibilidade tanto as ações machistas que constituem e são reproduzidas nessa prática, quanto as ações que visam minimizar e destituir as desigualdades de acesso e permanência de mulheres no futebol. Dentre essas últimas ações identificamos o chamado Futebol Callejero. Conforme Rossini et al (2012), esta prática teve início em um bairro de Moreno (Argentina) como uma experiência de construção coletiva juntamente a outros países e comunidades que se motivaram a jogar futebol desenvolvendo a cidadania. O início da proposta foi de recuperar o espaço de protagonismo e de diálogo entre os jovens em uma sociedade com muita violência estrutural, nas relações com a família, na comunidade e na escola. O Futebol Callejero é uma prática com uma proposta de transformação social que propõe resgatar os valores humanos, onde meninas e meninos jogam juntos, não existe árbitro e sim um mediador que auxilia no processo de diálogo, resolução de conflitos e na construção coletiva das regras do jogo.

O Futebol Callejero está presente em distintos cenários, sendo praticado em projetos sociais esportivos (Allet & Silveira, 2025), nas aulas de educação física escolar (Grifoni, 2020; Moraes, 2020; Moraes & Couto, 2021; Peixoto, 2020), em projetos de extensão universitários (Belmonte & Junior, 2020; Varotto; Junior & Lemos, 2017; Varotto & Júnior, 2019) e em projetos de iniciação a docência de acadêmicos de cursos de Educação Física (Jardim et al., 2017). Em uma revisão bibliográfica sobre o futebol callejero e as estratégias metodológicas para a formação humana Cavalheiro, Marcelino & Neuenfeldt (2024) identificam que “sua abordagem multifacetada demonstra a capacidade de transcender fronteiras, proporcionando experiências enriquecedoras em diversos cenários, fazendo-o emergir como uma potente ferramenta pedagógica, capaz de fomentar o protagonismo dos/as participantes” (p. 16).

Diante disso, optamos em compreender as pautas e debates que os estudos brasileiros nos trazem sobre o Futebol Callejero e identificar de que forma as questões de gênero são abordadas. Iremos apresentar na sequência, as estratégias que foram utilizadas para a busca dos trabalhos acadêmicos, juntamente com os dados, reflexões e impressões obtidas no decorrer desse processo. Importante destacar que o desejo em estudar sobre essas questões, também veio das experiências pessoais da primeira autora deste trabalho por ser ex-jogadora de futebol e atuar em um projeto social esportivo e de lazer (Programa Esporte Integral – PEI)1 de extensão universitária do munícipio de São Leopoldo no estado do Rio Grande do Sul (Brasil), na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos em que o Futebol Callejero é uma das atividades ofertadas.

2. Metodologia

Este trabalho consiste em uma revisão bibliográfica a partir de um garimpo de artigos, dissertações e teses realizado nas seguintes bases de dados, Oasisbr, Capes Periódicos, Capes Teses e Dissertações, Lume UFRGS e Scielo. Justificamos a utilização dessas bases uma vez que elas são de acesso gratuito e reconhecidas no Brasil por abarcarem importantes periódicos e as produções dos programas de pós-graduação brasileiros.

Utilizamos como estratégia de busca o tema: Futebol/Gênero/Futebol Callejero. Essas buscas foram realizadas em todas as plataformas mencionadas, considerando as dez primeiras páginas de cada uma delas e com um foco principal em pesquisas brasileiras sobre o Futebol Callejero. Importante registrar que no decorrer das buscas realizadas, tanto dentro da mesma plataforma, quanto em plataformas diferentes, alguns trabalhos se repetiram, e de acordo com essas informações, realizamos um levantamento dos números encontrados entre esses trabalhos, no qual iremos discorrer na sequência. A busca foi realizada em janeiro de 2022, sendo que os trabalhos encontrados nas plataformas foram publicados entre os anos 2016 e 2020, o que nos permite verificar que depois de 2020, até o período em que realizamos as buscas (janeiro de 2022), as pesquisas no Brasil sobre esse tema, ao menos nas plataformas em que acessamos, não foram mais produzidas. Ressaltamos também, que o instrumento para organização desses trabalhos, foi uma tabela construída no Excel, com informações que foram sendo preenchidas de acordo com os estudos encontrados. Nessa tabela inicial consta o ano de publicação, plataforma de dados, título, fonte (artigo, dissertação ou tese), observações e a data da busca.

No primeiro momento, no somatório entre todas as plataformas, foram encontrados 30 resultados, conforme organograma abaixo:

Figura 1
Organograma de busca
Organograma de busca
Fonte: Elaboração das autoras

Para obter um número mais preciso e detalhado sobre o resultado, visto que alguns trabalhos se repetiram entre as plataformas de pesquisa, excluímos os trabalhos repetidos entre as buscas, totalizando 10 estudos brasileiros encontrados sobre o Futebol Callejero (4 artigos, 5 dissertações e 1 tese), constatando assim um número reduzido de pesquisas sobre esse tema no Brasil. Importante trazer que dentre os 10 estudos encontrados um deles aparece nas buscas de pesquisa, não enquanto Futebol Callejero e sim Futebol 3 Tempos, uma prática diferente, então optamos por não trazê-lo na íntegra, pois não faz parte dos objetivos desse trabalho. Assim, fazem parte da análise 9 estudos.

Logo após realizamos a leitura desses estudos na íntegra, o que nos possibilitou verificar com mais precisão algumas questões que serão abordadas a seguir.

3. Futebol callejero: o que os estudos brasileiros nos dizem

Quando falamos em futebol, acreditamos despertar nas pessoas diversas sensações, pensamentos, recordações, impressões, cada um a sua forma de acordo com suas vivências junto a esse esporte, onde por mais distantes que estejamos dessa prática em nossa trajetória de vida, acabamos por lembrar de algo, justamente pela forte cultura que o futebol tem no Brasil. Dialogando com isso, se pensa na prática do futebol hegemônico, aquele referenciado pela lógica do mercado e do capital. Logo, ao acessar outras possibilidades de praticar o futebol, que no caso do Futebol Callejero se oportuniza outras formas de participação e inclusão, pode gerar um certo estranhamento, pois, é uma prática onde os/as invisibilizados/as têm a possibilidade de serem protagonistas do jogo também, onde a ferramenta do diálogo e da escuta é um dos grandes diferenciais nesse processo, e, um espaço em que podemos construir e abordar as relações de gênero. Diante disso e dos estudos em que acessamos, consideramos o Futebol Callejero enquanto um agente potente no Brasil, uma vez que desestabiliza e acaba descontruindo estruturas já dadas como verdades, abrindo novas possibilidades e novas construções enquanto um espaço de resistência e de luta frente às desigualdades sociais, inclusive as que são dadas na própria construção dos esportes, nesse caso em específico, o futebol.

A partir dos trabalhos que acessamos (4 artigos e 5 dissertações), refletimos sobre diversas questões que compõem o universo do Futebol Callejero. Desde temas que envolvem o processo histórico e seu desenvolvimento, até elementos que estão presente no cotidiano da prática. Entre descontinuidades, continuidades e novas perspectivas de seguir construindo e desenvolvendo o Futebol Callejero, temas como juventude, gênero, cidadania, política, relações de poder, processos pedagógicos e ideologias são questões que os estudos encontrados sobre o Futebol Callejero nos convidam pensar.

Importante ponderar que os 9 trabalhos analisados foram escritos no total por 10 homens e apenas 2 mulheres. Essa informação já mostra um processo de generificação de quem faz a produção científica sobre o tema do futebol. Stengers (2023) ao abordar “o gênero da ciência” (p. 51) pontua que a ciência não é neutra em relação ao gênero, e que mulheres são muitas vezes consideradas sem a “fibra que faz o ‘verdadeiro pesquisador’” (p. 56). Esse pode ser um argumento que faça mulheres estarem em menor número na autoria de trabalhos acadêmicos. No caso da produção que estamos analisando, soma-se o fato de tratarmos de um esporte que é hegemonicamente apropriado pelos homens no Brasil e que historicamente, conforme abordamos na introdução, foi considerado impróprio para mulheres.

A seguir apresentamos os quatro temas principais que foram tratados na produção analisada e evidenciar as questões de gênero que percorreram esses temas.

3.1 Futebol Callejero e os processos educativos

Ao acessar os trabalhos sobre o Futebol Callejero no Brasil, percebemos que os objetivos relacionados aos processos educativos que essa prática permite, foram os que mais apareceram entre os textos, isso quantitativamente falando. Nos demos conta também, que alguns autores se repetiram entre os estudos que serão citados a seguir. O artigo “Fútbol callejero: nascido e criado no Sul” (Belmonte & Junior, 2018), teve por objetivo a identificação, a descrição e a compreensão dos processos educativos presentes nas experiências e na prática social do fútbol callejero, junto a um projeto socioeducativo, com crianças e adolescentes moradores na periferia da cidade de São Carlos em São Paulo. Esse estudo traz um breve relato sobre a origem do fútbol callejero, bem como seu processo histórico e desenvolvimento, e junto a isso, uma reflexão sobre os possíveis futebóis, mencionando esses como prática não hegemônica, ou seja, invisibilizados, comparado a hegemonia do futebol contemporâneo que é altamente visibilizado. Conforme os autores Belmonte & Junior (2018, p. 157):

Portanto, não pretende este artigo uma comparação de práticas do futebol do passado com as do presente, mas o reconhecimento de que há, através dos tempos, diferentes práticas de futebol, e que, decorrente de fatores históricos, políticos, sociais, espirituais e econômicos, na contemporaneidade temos um futebol hegemônico (altamente visibilizado) e futebóis não hegemônicos (invisibilizados).

Através dessas informações refletimos sobre esse processo histórico relacionado às diferentes práticas de futebol, onde um futebol é visível (hegemônico) e outras possibilidades de futebóis são tidas como invisíveis. Junto a isso, questionamos onde mulheres se inserem dentro desse contexto? De acordo com os autores, a participação das mulheres no contexto do futebol, era vivenciada apenas enquanto espectadoras que acompanhavam seus companheiros aos jogos. Essa realidade observada por Fábian Ferraro2, dentro do processo de criação e desenvolvimento da prática do fútbol callejero, fez com que ele propusesse diante disso, um futebol misto, onde homens e mulheres pudessem jogar juntos e juntas, com o objetivo de incluí-las nesse espaço. Com isso entendemos que os futebóis tidos como invisíveis e como práticas não hegemônicas, podem ser um espaço que amplia as possibilidades de tornarem visíveis os invisíveis propiciando a inclusão desses nesse contexto. Constatamos também, que esse olhar de incluir as mulheres nesse processo, veio de uma figura masculina, o que possibilitou a quebra de uma hegemonia vinculada às normas que colocam o espaço do futebol enquanto um lugar masculino.

A análise dos dados da pesquisa realizada por Belmonte & Junior (2018) veio através da categoria “Fútbol callejero é para ser mais!”3. Através dessa compreensão revelou ações de cuidado com os outros, bem como protagonismo, autonomia e responsabilidade das participantes e dos participantes do projeto. Esse estudo propõem uma reflexão acerca do fútbol callejero que nos permite pensar sobre os possíveis futebóis e o futebol contemporâneo juntamente às relações de poder que circulam nesses contextos. O o fútbol callejero é compreendido enquanto um espaço de participação popular, que anuncia a descolonização, a despatriarcalização e a descapitalização. Conforme os autores, quando se referem a descolonização, citam a FIFA enquanto um grande agente de poder no contexto do futebol hegemônico e apontam o fútbol callejero como uma prática popular que questiona a colonização de poderes, e que possibilita a construção compartilhada junto à população e suas práticas. Em relação à despatriarcalização, os autores mencionam o futebol moderno enquanto um espaço que obriga a separação de sexo em sua prática, baseado na anatomia física entre homens e mulheres, enquanto o fútbol callejero possibilita que mulheres e homens joguem juntos, onde o alicerce baseado em uma convivência de respeito, cooperação e solidariedade4 nesse espaço, favoreça a participação justa e igualitária entre os participantes e as participantes dessa prática. Sobre a descapitalização, esse estudo comenta que o futebol hegemônico possui um formato que incentiva e valoriza a prática de homens, o que é amplamente comercializado na rede de comunicação, o que acaba por apontar uma ausência do futebol praticado por mulheres e ou do futebol popular.

Da mesma forma que o estudo anterior, o artigo “Fútbol Callejero: esperançando alteridade” também de autoria de Belmonte & Junior (2020), aborda questões referentes aos processos educativos voltados à prática do fútbol callejero em dois projetos sociais distintos do estado de São Paulo, onde através da participação e registros de observações nos diários de campo, permitiu constatar que a metodologia do fútbol callejero auxiliou no desfrute do processo educativo da alteridade. Esse estudo identificou o diálogo enquanto um elemento imprescindível para o desenvolvimento do processo educativo da alteridade. De acordo com Belmonte & Junior (2020, p. 329):

A alteridade, então, se mostrou como um potente processo educativo e forma de promover a atitude de cuidar, de tal maneira que o participante pôde olhar-para-si, tendo como objeto de reflexão sua própria ação, colocando-se no lugar de outrem e realizando autocrítica.

Esse estudo nos permitiu refletir sobre os processos educativos que o fútbol callejero propicia nos espaços onde é desenvolvido, onde nesse caso, a alteridade vista enquanto a capacidade de refletir e se colocar no lugar dos outros, foi o principal resultado dessa pesquisa, onde o diálogo e o processo de escuta foram imprescindíveis nesse processo.

O estudo “Fútbol Callejero: processos educativos decorrentes de uma motricidade emergente” trata-se da tese de doutorado de Maurício Mendes Belmonte (2019) sobre orientação do Prof. Dr. Luiz Gonçalves Junior. Estes dois pesquisadores são os autores dos dois estudos citados anteriormente e assim como como aquelas pesquisas, aborda os processos educativos relacionados à prática do Futebol Callejero. O trabalho foi realizado nos mesmos projetos socioeducativos dos demais estudos com crianças e adolescentes residentes em bairros empobrecidos no município de São Carlos no interior de São Paulo/Brasil. A partir disso, o objetivo foi identificar e compreender os processos educativos atrelados ao Fútbol Callejero, bem como, os momentos baseados na lógica dos pilares da prática deste futebol inspirado na análise de convivência nas atividades de jogo/ócio/lazer. Esse estudo teve uma abordagem qualitativa através da sistematização de experiências e juntamente à redução fenomenológica, realizou-se a participação e os registros. A atuação em campo se deu enquanto educadores-investigadores durante os momentos de Mediação do Fútbol Callejero e das vivências práticas, onde as experiências foram registradas através de filmagens, bem como diários com relatos de experiência e transcrição das falas dos participantes e das participantes.

Os resultados dessa pesquisa culminaram em alguns aspectos que se identificam nos estudos anteriores, também já estudados por esses autores, como por exemplo questões como o capitalismo, o patriarcado e o colonialismo. De acordo com Belmonte (2019, p. 184), a sistematização desse estudo compreendeu “que o Fútbol Callejero é Anticapitalista, pois emerge originalmente de um projeto de Educação Popular promovendo uma educação emancipadora para jovens moradores em periferias empobrecidas”; que o Fútbol Callejero é Antipatriarcal, pois as equipes são compostas de forma mista onde meninas e meninos jogam juntos. “Em nossa investigação, inclusive, um dos processos educativos identificados foi justamente a educação para as relações de gênero” (Belmonte, 2019, p. 184); e que “o Fútbol Callejero é Anticolonialista uma vez que, ao estabelecer interfaces entre a Educação Popular com um localismo globalizado (o jogo de futebol), o fez desde uma relação de alteridade e horizontalidade, em lugar de subalternidade” (Belmonte, 2019, p. 185). Importante mencionar também, sobre a expressão “callejera” trazida por esse trabalho, onde na sua tradução para o português, poderia ser lida como “rueira”, referindo-se a muitas expressões da cultura popular, no âmbito público da rua, representando resistência, empoderamento e luta juntamente às manifestações populares.

Dando sequência nos trabalhos que abordam sobre os processos educativos relacionados ao Fútbol Callejero, identificamos o estudo “Fútbol callejero: um olhar para os processos educativos” (Varotto & Júnior, 2019). Assim como o título mesmo menciona, também tem o objetivo de compreender os processos educativos decorrentes das vivências com o fútbol callejero em um projeto no município de São Carlos em São Paulo. Observamos, que esse e os demais estudos citados anteriormente, compartilham de algumas ideias, tendo como ponto central os processos educativos decorrentes de espaços e experiências com o fútbol callejero. Da mesma forma, a realização dessas pesquisas coincide nos mesmos projetos, com algumas semelhanças entre temas, resultados e autores, e também com outras questões a refletir. Percebemos que esse artigo, diferente dos demais, foca na importância da figura do mediador no processo de desenvolvimento da prática do fútbol callejero. Conforme os autores, o mediador pensa e constrói ações ao longo das atividades e encontros, objetivando um espaço onde os protagonistas são as crianças e os jovens. Comentam também que não existe uma fórmula para mediar as diversas situações que podem ocorrer, e que através do diálogo, convida a todos e todas envolvidas a procurar uma solução para as possíveis situações. “O termo mediador(a) não é por acaso, pois essa pessoa irá mediar os diferentes momentos, tendo em vista que não há uma forma e/ou uma receita precisa, pois há corpos que criam situações, muitas vezes tensas” (Varotto & Júnior, 2019, p. 54).

Dialogando sobre o tema da mediação no Futebol Callejero o mesmo autor do estudo anterior, Nathan Raphael Varotto (2020), realiza a sua dissertação de mestrado intitulada “A prática social da mediação no Fútbol Callejero: processos educativos decorrentes” de cunho qualitativo que objetiva identificar e compreender os processos educativos decorrentes da mediação no Fútbol Callejero. Teve sua análise de dados inspirada na fenomenologia situada e para construções das informações utilizou-se de entrevistas com seis mediadores, resultando então em duas categorias de análise. A primeira está relacionada com a construção do conhecimento e vivências de novas práticas a partir da subjetividade e intersubjetividade da mediação no Fútbol Callejero. A segunda categoria está relacionada ao protagonismo comunitário ao tornar-se mediador ou mediadora no Fútbol Callejero, o que possibilitou desdobramentos na vida das mediadoras e mediadores entrevistados em relação ao processo de desenvolvimento de liderança e de referência em suas comunidades. “Neste estudo, em que foi central a prática social da mediação no Fútbol Callejero, destacamos o favorecimento do protagonismo juvenil, em que os(as) jovens assumiram o papel de mediadores(as) e de representantes/lideranças em suas comunidades” (Varotto, 2020, p. 54). De acordo com essa pesquisa a prática da mediação no Fútbol Callejero possibilitou transformações aos entrevistados e entrevistadas, no qual passaram a pensar sobre suas vidas e seus contextos sociais. Os pilares do Fútbol Callejero, como o respeito, cooperação e solidariedade foram muito importantes nesse processo, em que suas ações passaram a se dar não somente nos momentos dos jogos, mas fora também.

Os resultados desses cinco estudo, consideram o fútbol callejero não como um esporte, e sim como uma práxis educativa que se relaciona com o lazer e o jogo, potencializando e nos ensinando a ser mais, a termos ações críticas, que incluam, acolham, que sejam solidárias, onde o diálogo seja a base entre as relações e seus participantes. Observamos nestas pesquisas, que o espaço de reflexão, de escuta e diálogo é o grande diferencial da prática do fútbol callejero, onde a mediação é um grande ator nesse processo. Sentimos, até o momento, falta de abordagem da participação das meninas e mulheres nas práticas das experiências nos projetos pesquisados. Sobre a participação delas, esses artigos e dissertações mencionaram de forma rasa, isso indica que mais pesquisas são necessárias sobre a participação delas no fútbol callejero, pois essa prática foi pensada também para a inclusão meninas e mulheres nesse espaço, mas o que podemos observar diante dessas informações, é que dentro do âmbito científico precisa-se ampliar olhares e estudos frente a esse tema.

3.2 Futebol Callejero nas aulas de Educação Física escolar

Dando sequência sobre o que os trabalhos nos falam sobre o Futebol Callejero, apresentaremos a experiência de dois estudos que se utilizaram da pesquisa-ação no âmbito escolar, enquanto ferramenta metodológica. O trabalho “Processos educativos emergentes de uma unidade didática com o Fútbol Callejero nas aulas de educação física” (Grifoni, 2020), trata-se de uma dissertação de mestrado profissional e teve por objetivo realizar uma análise sobre os processos educativos relacionados aos saberes atitudinais e didáticos com o Futebol Callejero nas aulas de Educação Física, com uma turma de 9º ano do Ensino Fundamental em uma escola pública da rede estadual de ensino em Araraquara no estado de São Paulo. O autor menciona que na dupla posição de pesquisador e professor no momento da pesquisa, ele procurou reconstruir a realidade vivenciada e trazer a experiência obtida juntamente às aulas de Educação Física na escola escolhida para esse estudo. Para tanto utilizou-se da pesquisa-ação enquanto procedimento metodológico tendo como instrumento para a construção das informações os diários de aula. Esse estudo questiona se o Fútbol Callejero, diante dos conflitos e dificuldades de relacionamento existentes nas aulas de Educação Física durante a prática esportiva, poderia ser uma estratégia que promova relações humanizadas pautadas nos valores de respeito, cooperação, solidariedade e diálogo.

Através da análise de dados, emergiram nesse trabalho três categorias. Uma delas traz o Fútbol Callejero enquanto um espaço que as meninas podem jogar de igual para igual. Através disso pode-se observar, que foi possível sensibilizar a turma sobre as relações e igualdade de gênero destacando para um empoderamento das meninas em outros espaços ditos de meninos fora do contexto escolar, como no campo de futebol da praça aos arredores da escola. A segunda categoria de análise, aborda questões de habilidades para o futebol, onde a escolha pelas equipes dá um destaque para a seleção dos mais habilidosos, e com isso possibilitou verificar que não apenas as meninas eram excluídas do futebol, mas também os meninos menos aptos para essa prática. A terceira e última categoria analisada aborda a união e fortalecimento das amizades através do Fútbol Callejero, onde a “autonomia na construção das regras e o espaço aberto ao diálogo foram essenciais para promover as mudanças observadas em relação aos aspectos atitudinais, como cooperação, respeito, solidariedade, empatia, tolerância” (Grifoni, 2020, p. 108). Através disso, essa pesquisa conclui que o Fútbol Callejero propiciou momentos de relações humanizadas, através do diálogo, empatia, respeito, solidariedade, cooperação, sendo uma ferramenta pedagógica eficiente para desenvolver saberes atitudinais relacionados ao esporte na Educação Física escolar.

A pesquisa “A construção de valores orientada pela metodologia callejera na educação física escolar” (Castro, 2018), trata-se de uma dissertação de mestrado que através de intervenções nas aulas de Educação Física, com o conteúdo do futebol e baseado na Metodologia Callejera, buscou analisar os desdobramentos desse processo de intervenção, com alunos e alunas do 9° do ensino fundamental em uma escola estadual da rede pública de ensino no interior de São Paulo. Teve uma abordagem qualitativa, constituída pela pesquisa-ação, onde as observações das aulas foram registradas em diários e entrevistas respondidas pelos alunos, no qual foram gravados e posteriormente transcritos. Através das análises de dados juntamente à literatura, foi possível construir três categorias de análise. A primeira é baseada na construção de valores através da Metodologia Callejera, a segunda está relacionada à estrutura e dinâmica da Metodologia Callejera e terceira e última trata dos desafios e das possibilidades de desenvolvimento dessa prática na escola. De acordo com essa pesquisa, os resultados apontam para uma boa receptividade por parte dos alunos em relação a Metodologia Callejera, envolvendo uma disposição à prática por aulas mistas. Esse estudo traz também sobre a melhora dos jogos estarem relacionados às tomadas de decisões em conjunto e compartilhadas entre o grande grupo, bem como o diálogo mais precisamente, e que o planejamento e os ajustes no decorrer das intervenções foram necessários para esses resultados, o que possibilitou verificar as mudanças atitudinais dos alunos e alunas participantes.

Através desses dois estudos, podemos perceber, que o desenvolvimento da prática do Futebol Callejero no espaço escolar nas aulas de Educação Física, pode ser uma ferramenta importante, que aborda diversas questões, como por exemplo as relações de gênero, enquanto uma prática de acesso a todos e todas independente de habilidades ou não para o futebol, e até mesmo o gosto pela prática de aulas mistas. Outra questão importante, é referente ao termo mencionado por um dos estudos, referindo-se ao Futebol Callejero enquanto uma “Metodologia Callejera”. Trouxemos essa questão, pois nenhum dos estudos anteriores aborda o Futebol Callejero dessa forma, o que nos pareceu ser algo criado pela própria pesquisa. Junto a isso também, no próprio Movimento de Futebol Callejero, principal agente de desenvolvimento dessa prática, não aparece esse termo, o que sugere novamente como algo inventado junto às práticas do local estudado.

3.3 Futebol Callejero e as relações entre juventudes, esportes e cidadanias

Dentro de uma perspectiva de educação para a juventude e cidadania através dos espaços que desenvolvem a prática de esporte e lazer, o estudo “Futebol Callejero, juventude e cidadania” (Gutierrez, Dotto & Allet, 2016), nos faz refletir sobre esses temas a partir da prática do Futebol Callejero enquanto importante agente nesse processo. Com o objetivo de investigar as ligações e conexões entre os temas juventude, esporte e cidadania, a partir do Futebol Callejero, esse artigo procura verificar em que dimensões as práticas de Futebol Callejero propiciam vivências relacionadas à cidadania, que ajudam em seu desenvolvimento pessoal voltados às capacidades de atuação enquanto cidadãos no espaço público. Como objeto de pesquisa desse estudo foi utilizado dois eventos de Futebol Callejero, o Mundial 2014 e a Copa América 2015. Importante ressaltar sobre o que esse estudo traz referente ao Movimento de Futebol Callejero, assim como seus objetivos e desenvolvimento, no qual fazem parte também desse processo relacionado aos eventos mencionados anteriormente, objetos de investigação desse estudo.

Desde essa perspectiva, de assumir o esporte e o lazer como espaços de educação para a juventude, que educadores de diversas partes do mundo começaram a abordar a largamente difundida cultura do futebol de rua. A partir dessa ideia, em um bairro violento dos arredores de Buenos Aires, surge o Movimento Futebol Callejero como um instrumento de mobilização e organização da juventude. A ideia fundamental é voltar às raízes do futebol de rua, uma prática desportiva de lazer autorregulada, onde regras são previamente acordadas e tacitamente respeitadas por todos os participantes de um jogo, sem a necessidade de uma regulação ou autoridade externa (Gutierrez, Dotto & Allet, 2016, p. 20).

De acordo com o Movimiento Fútbol Callejero (2013), citado por Gutierrez, Dotto e Allet (2016), o movimento é composto atualmente por um conjunto de organizações sociais, que através da prática do Futebol Callejero, compartilham junto aos seus participantes uma missão que visa a defesa dos direitos humanos, a possibilidade de construção da cidadania, lutando pela justiça, reforçando a diversidade cultural e étnica, assim como promover uma sociedade inclusiva.

Através desse estudo percebemos, que os temas abordados nesse artigo como a cidadania e a juventude, são atravessados por diversas questões e debates ao longo do tempo, juntamente ao valor que eles carregam consigo para a sociedade. “A juventude não é fato universal imutável, senão uma condição social historicamente construída” (Gutierrez, Dotto & Allet, 2016, p. 21). Assim os olhares vindos de diversos contextos, culturas e realidades, com abordagens por vezes estereotipadas que podem ampliar as desigualdades entre os jovens. Diante disso, essa pesquisa propõe uma cidadania ativa, voltada a uma educação da juventude para a cidadania, apontando para uma autonomia de desenvolvimento pessoal, bem como, a capacidade de atuar na esfera pública, e não somente uma autonomia financeira. De acordo com Gutierrez, Dotto & Allet (2016, p. 22):

Além de coerente com a realidade contemporânea, o conceito de autonomia fundado na capacidade de atuar na esfera pública tem como vantagem o impulso que oferece ao conceito de cidadania ativa, posto que supera o status passivo gerado pela ideia de autonomia econômica, baseada sobretudo no direito ao trabalho assalariado.

Conforme os autores e a autora, diante da sistematização dos referenciais teóricos juntamente às informações organizadas, emergiram algumas categorias que possibilitaram o processo analítico de acordo com os resultados. A orientação político-pedagógica do Movimento Futebol Callejero, o protagonismo e a participação juvenil, a apropriação de espaços como territórios de juventude cidadã e o diálogo como meios de solução de conflitos, foram as categorias que emergiram diante das informações obtidas com essa pesquisa juntamente aos eventos propiciados pelo Movimento de Futebol Callejero. Diante disso, esse estudo conclui que os eventos pesquisados, o Mundial de Futebol Callejero 2014 e a Copa América de Futebol Callejero 2015, ofereceram experiências de cidadania para a juventude.

Através dessas informações, refletimos sobre a importância dos espaços dedicados a juventude enquanto locais que propiciam a autonomia, o protagonismo e a liderança, questões que dialogam diretamente com a cidadania. Percebemos o valor dado, para a apropriação dos espaços públicos, bem como a prática do direito ao esporte e lazer, em um mundo cada vez mais tutelado, onde a cidadania ativa acaba sendo desvalorizada. Portanto, espaços de desenvolvimento pessoal, como esse estudo traz, são oportunidades que os eventos de Futebol Callejero propiciam para a cidadania ativa. Aquela não pautada apenas na autonomia financeira, mas aquela que auxilia as pessoas a serem protagonistas na esfera pública.

3.4 Futebol Callejero, esporte social e movimentos sociais

Dentre os estudos analisados, um deles nos emprega esforços para compreender diversas questões atreladas à organização e as configurações das redes que mantem o Futebol Callejero. O estudo “Esporte social, redes sociais e permeabilidades: Uma análise do Movimento de Futebol Callejero a partir das teorias das Ações Coletivas” (Dotto, 2019), é uma dissertação de mestrado que tem por objetivo compreender, a partir de uma análise de redes, a relação entre a sociedade civil e o âmbito do esporte social, onde os atores e as organizações ligadas ao Movimento de Futebol Callejero5 foram estudados. Esse trabalho busca compreender o processo de diversas interações e correlações entre os diferentes atores pertencentes ao Movimento de Futebol Callejero que atuam nesse campo. Para isso aborda questões relevantes que giram em torno de uma abordagem teórica focada no esporte social e sua relação com a sociedade civil, que no caso estudado (a configuração do Movimento de Futebol Callejero, composto por organizações sociais de diversos países da América do Sul), se utiliza da cultura do futebol enquanto ferramenta que possui um forte potencial convocatório, para desenvolver a metodologia do Futebol Callejero. O autor menciona que de acordo com os documentos do Movimento de Futebol Callejero, o termo “metodologia” é nomeado como uma “forma de conceituar o futebol como uma estratégia para acompanhar processos de aprendizagem e de inclusão social, recuperar valores humanos e desenvolver processos comunitários de transformação e de lideranças” (Dotto, 2019, p. 20). O autor ressalta também, sobre a riqueza de possibilidades de estudos frente ao Movimento de Futebol Callejero, pois a sua ampla vinculação com as políticas públicas de esporte e lazer entre os países pertencentes a essa rede, bem como o próprio desenvolvimento do Movimento, podem trazer dados e informações importantes sobre a relação do esporte e dos movimentos sociais.

As questões que norteiam essa pesquisa estão relacionadas em como se configura a rede de relações que sustentam o Futebol Callejero no viés do esporte social, em como se dá o envolvimento entre os atores nessa rede do Movimento de Futebol Callejero e de que maneira essa configuração auxilia na compreensão do esporte social na perspectiva da abordagem teórica sobre os movimentos sociais. Através disso o autor se utiliza de algumas abordagens teóricas que sustentam seu trabalho. Dotto (2019), opta por uma noção de esporte social, enquanto uma composição que estrutura, baliza e norteia o processo de desenvolvimento de políticas públicas voltadas para o esporte e lazer no continente Sul-americano. O que Dotto (2019, p. 27) propõe, “é o entendimento da noção de esporte social como política, regendo as ações em um campo mais amplo, onde projetos sociais esportivos, clubes e outros tipos de organizações da sociedade civil executam essa política”. Em relação ao conceito sobre os movimentos sociais, o autor menciona os estudos desenvolvidos por Della Porta e Diani (2006). Segundo esses autores (Porta & Diani, 2006) citado por (Dotto, 2019, p. 31):

Os movimentos sociais são um processo social distinto, consistindo nos mecanismos através dos quais os atores envolvidos na ação coletiva têm relações de conflitos com oponentes claramente identificados; estão ligados por redes informais densas e compartilham uma identidade coletiva distinta.

Para abordar e situar as trajetórias individuais dos atores, bem como das organizações em diferentes momentos dentro do Movimento de Futebol Callejero, esse estudo aborda uma análise sobre as Redes Sociais. “Neste tipo de análise, uma rede social é formada por um conjunto de atores ligados por uma relação, podendo, dentro da rede existir vínculos diretos e indiretos entre os atores” (Dotto, 2019, p. 36). Devido a uma observação nesse estudo, frente a participação de alguns membros do Movimento do Futebol Callejero em cargos estatais, o autor optou por incluir na análise dessa pesquisa, a teoria das permeabilidades que conforme Marques (2000) citado por (Dotto, 2019, p. 37) “esse padrão de vínculos pessoais que caracteriza as relações entre Estado e os interesses privados é chamado de permeabilidade”.

Essa pesquisa se constituiu a partir de entrevistas semiestruturadas, vinculadas à teoria da Análise de Rede Social, pesquisas bibliográficas, documentais, bem como observações participantes. Se deu através de uma construção analítica, sobre a trajetória de dez pessoas em posições de destaque, seja na coordenação ou direção, que fizeram ou que ainda fazem parte de alguma forma do Movimento de Futebol Callejero. Diante das informações trazidas por esse estudo, nos chamou atenção sobre os participantes da pesquisa, onde apenas uma mulher aparece dentre os dez que esteja em uma posição de destaque dentro dessas organizações. O que nos faz refletir sobre a metodologia do Futebol Callejero, onde mesmo sendo pensada para inclusão de meninas e mulheres, elas pouco estão ocupando espaços de liderança na rede do Movimento de Futebol Callejero, assim como também pouco mencionadas nos estudos que acessamos.

Os resultados desse estudo indicam, dentro da rede, uma diversidade de pessoas e organizações que alteram de posições, conforme as oportunidades e demandas que se dão. Diante do processo analítico das redes, acabam surgindo questões que sustentam e que proporcionam a ligação dos agentes a esta rede, a partir de três amarras: a prática do futebol, um identidade Sul-americana e uma ideologia que diferencia o Movimento de Futebol Callejero de outras práticas semelhantes. Conclui-se também que os movimentos sociais passam a buscar interferências nas agendas do Estado ao invés de combatê-lo. Esse estudo nos permitiu refletir diversas questões, entre elas, novamente a cultura do futebol aparece com um poder cultural e simbólico em destaque, pois ele é o instrumento utilizado pela metodologia do Futebol Callejero enquanto um dispositivo com uma grande capacidade de convocação e participação das pessoas, e conforme essa pesquisa, visto como uma das amarras entre as organizações pertencentes ao Movimento de Futebol Callejero. Refletimos também, que aqui o futebol é tratado como uma ferramenta que inclui, com uma ideologia pautada em oportunidades e desenvolvimento dos jovens enquanto referentes em posições de liderança dentro das organizações, que é um espaço de extrema importância na construção política, pautada no esporte social enquanto direito, e não como uma mercadoria de acesso restrito.

4. Considerações finais

Se na introdução deste artigo justificamos a sua relevância devido entendermos que as questões de gênero e futebol são centrais no Brasil, finalizamos com algumas aprendizagens que os estudos sobre Futebol Callejero nos apontam sobre essas e outras questões. Considerando que é corriqueiro escutarmos que o Brasil é o ‘país do futebol’, entendemos que ainda são poucos as pesquisas realizadas sobre o Futebol Callejero. Identificamos que as pesquisas no Brasil sobre esse tema, nas plataformas que acessamos, iniciaram no ano de 2016 e se deram até 2020, de lá para cá (até a realização da busca, 2022) não foram mais produzidas. Além disso, dos 9 trabalhos encontrados e analisados, 7 deles são pesquisas que acompanharam a prática do Futebol Callejero no estado de São Paulo (região Sudeste do Brasil). Esses fatos podem estar relacionados devido essa prática estar entre os “futebóis” tidos invisíveis e não hegemônico. Assim, consideramos que este artigo cumpri um papel de ampliar as possibilidades de tornar visíveis os invisíveis propiciando a inclusão tanto de quem propõem quanto de quem ‘joga’ esse futebol.

A partir dos trabalhos analisados pudemos inferir que o Futebol Callejero é um espaço de participação popular, que anuncia a descolonização, a despatriarcalização e a descapitalização, questionando colonização de poderes, e que possibilita a construção compartilhada junto à população e suas práticas. Os estudos trazem sobre a capacidade de reflexão que o Futebol Callejero desenvolve nas/nos participantes, onde aprendem a se colocar no lugar dos outros, tendo o diálogo e o processo de escuta imprescindíveis nesse processo.

Outras questões também emergiram, como a oportunidade de promoção por uma educação emancipadora para as e os jovens, bem como uma educação para as relações de gênero e empoderamento feminino. Visto para além do jogo, mas também como uma prática de lazer que potencializa a criticidade, o acolhimento, a inclusão e a solidariedade, em que uma das principais ferramentas nesse processo é o diálogo e a escuta, conforme mencionado anteriormente. Traz a mediação enquanto um ator primordial nessa prática, bem como o respeito, a cooperação e a solidariedade enquanto pilares do Futebol Callejero. Pensado também como uma possibilidade, diante dos conflitos e dificuldades de relacionamento existentes nas aulas de Educação Física escolar durante a prática esportiva, e uma estratégia para promover relações humanizadas a partir das escutas e dos valores humanos e sociais, bem como uma maior disposição para a participação em formato misto. Questões como o esporte social, movimentos sociais e as relações com a sociedade civil, também foram reflexões que os estudos trazidos abordaram sobre a prática do Futebol Callejero.

Diante disso, podemos observar junto às produções científicas realizadas no Brasil sobre o Futebol Callejero, que os estudos encontrados nos possibilitaram aprendizados e nos deram um panorama do que vem sendo produzido acerca dessa prática, e que apesar de ser pensada para a inserção das meninas e mulheres ao jogo, por ser uma prática mista, não encontramos estudos específicos sobre esse assunto. Fato que nos leva a apontar que falta produções no Brasil sobre como elas se inserem e participam desta prática.

Roles de colaboración

Concetualização: Andressa Vieira Allet, Carolina Caneva da Silva, Ariane Correa Pacheco, Raquel da Silveira.

Curadoria dos dados: Andressa Vieira Allet, Carolina Caneva da Silva, Raquel da Silveira.

Análise formal: Andressa Vieira Allet, Carolina Caneva da Silva, Ariane Correa Pacheco, Bruna Tassiane dos Santos Pontes, Raquel da Silveira.

Aquisição de financiamento: Andressa Vieira Allet.

Investigação: Andressa Vieira Allet, Carolina Caneva da Silva.

Metodologia: Andressa Vieira Allet, Carolina Caneva da Silva, Ariane Correa Pacheco, Bruna Tassiane dos Santos Pontes, Raquel da Silveira.

Administração do projeto: Raquel da Silveira.

Supervisão: Raquel da Silveira.

Visualização: Andressa Vieira Allet, Raquel da Silveira.

Redação do rascunho original: Andressa Vieira Allet, Carolina Caneva da Silva, Ariane Correa Pacheco, Bruna Tassiane dos Santos Pontes, Raquel da Silveira.

Redação – revisão e edição: Andressa Vieira Allet, Bruna Tassiane dos Santos Pontes, Raquel da Silveira.

Referências

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Notas

1 O PEI é um projeto social esportivo e de lazer, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, que tem o objetivo de formação cidadã através do esporte, e que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social do município de São Leopoldo/RS, desde 1988. Maiores informações acessar o link: https://www.unisinos.br/extensao/acao-social/programas/programa-esporte-integral?gad_source=1&gclid=EAIaIQobChMI-uOiy5XigwMVcEVIAB2inALYEAAYASAAEgJnJfD_BwE
2 Fábian Ferraro foi quem criou o Fútbol Callejero. Ele é um ex-jogador de futebol semiprofissional (Club Atlético Defensores del Chaco), de Buenos Aires, Argentina.
3 “Compreendemos que esta característica inventiva, inerente à própria dinâmica do fútbol callejero, oportunizou para os/as participantes do projeto socioeducativo o protagonismo, a (co)responsabilidade e o comprometimento na criação e transformação do jogo, de modo que tal prática tem possibilitado o aprendizado do “ser mais” (Belmonte & Junior, 2018, p. 170).
4 De acordo com Rossini et al (2012), citado por esse estudo, os três pilares fundamentais do fútbol callejero são: respeito, cooperação e solidariedade.
5 Na fundação do Movimento de Futebol Callejero se opta pela utilização da expressão grifada dessa forma “aportuguesada”, com a palavra Futebol em português, e mantendo a expressão original Callejero, como na língua espanhola. A ideia era diferenciar esta prática de outras que utilizam o termo Futebol de Rua, como jogos de vídeo game e modalidades de malabarismos com bola de futebol (Dotto, 2019, p. 13).

Recepción: 21 Marzo 2025

Aprobación: 30 Junio 2025

Publicación: 01 Julio 2025



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