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Práticas pedagógicas inovadoras em Educação Física: o estudo de um caso
Resumo: Este artigo tem como objetivo caracterizar a atuação de um professor de Educação Física que atua com práticas inovadoras na escola. A partir de uma abordagem qualitativa, realizou-se um estudo de caso, tendo como instrumentos para levantamento de dados: uma entrevista semiestruturada, observações de 20 aulas do professor – transcritas em um diário de campo –, documentos normativos da universidade na qual Marcos cursou a formação inicial e da escola onde atua como docente. Para a compreensão dos dados, utilizou-se uma análise de conteúdo por categorização temática. Os elementos que caracterizam a atuação do professor como práticas inovadoras na escola são: o envolvimento formativo para além da grade obrigatória, a constante busca por formação continuada em serviço visando qualificar suas aulas, coerência entre seu discurso e sua ação pedagógica, da mesma forma, o processo avaliativo que envolve o aluno na construção dos conhecimentos. Suas ações inovadoras marcadas por momentos de diálogo, escuta e problematizações, tornam suas aulas direcionadas à realidade da comunidade, sem deixar de trabalhar aspectos universais do conhecimento científico, considerando a especificidade do componente curricular Educação Física, de modo a ampliar o repertório de conhecimentos e vivências dos estudantes de uma forma crítica.
Palavras-chave: Educação Física, Práticas Pedagógicas Inovadoras, Concepções docentes.
Innovative teaching practices in Physical Education: a case study
Abstract: This article seeks to characterize the performance of a Physical Education teacher who implements innovative practices in school. Using a qualitative approach, a case study was conducted, collecting data through a semi-structured interview, observations of 20 classes transcribed in a field diary, and normative documents from both the university where the teacher received initial training and the school where he works as a teacher. Data were analyzed through thematic content categorization. The elements characterizing the teacher’s actions as innovative practices include formative engagement beyond the mandatory hours, the continuous pursuit of in-service training to enhance the quality of their teaching, coherence between their pedagogical discourse actions, and an evaluation process that actively involves students in the construction of knowledge. Their innovative actions are marked by moments of dialogue, listening, and problematization, focusing their classes on the community’s realities while integrating universal aspects of scientific knowledge. Furthermore, he maintains fidelity to the specific curricular contents of Physical Education to broaden the student’s knowledge and experiences critically.
Keywords: Physical Education, Innovative Teaching Practices, Teacher Imaginary.
Prácticas pedagógicas innovadoras en Educación Física: un estudio de caso
Resumen: Este artículo tiene como objetivo caracterizar el desempeño de un docente de Educación Física que trabaja con prácticas innovadoras en la escuela. Con un enfoque cualitativo, se realizó un estudio de caso, utilizando para la recolección de datos los siguientes instrumentos: entrevista semiestructurada, observaciones de 20 clases del docente – transcritas en un diario de campo –, documentos normativos de la universidad donde Marcos asistió inicialmente formación y la escuela donde trabaja como docente. Para comprender los datos se utilizó el análisis de contenido mediante categorización temática. Los elementos que caracterizan la actuación docente como prácticas innovadoras en la escuela son: la implicación formativa más allá del horario obligatorio, la búsqueda constante de una formación continua en el servicio encaminada a cualificar sus clases, la coherencia entre su discurso y su acción pedagógica, de la misma manera, el proceso de evaluación que involucra al estudiante en la construcción del conocimiento. Sus acciones innovadoras están marcadas por momentos de diálogo, escucha, problematización, enfocando sus clases en la realidad de la comunidad, sin dejar de trabajar aspectos universales del conocimiento científico, y sin desconocer la especificidad del componente curricular de Educación Física, para ampliar el repertorio de conocimientos y experiencias de los estudiantes de forma crítica.
Palabras clave: Educación Física, Prácticas Pedagógicas Innovadoras, Concepciones Docentes.
Introdução
A Educação Física (EF) enquanto componente curricular obrigatório da Educação Básica tem como finalidade integrar criticamente os estudantes na cultura corporal de movimento, potencializando o desenvolvimento das capacidades críticas, propiciando autonomia para se posicionarem frente aos desafios cotidianos. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2017), esse componente curricular se pauta pelo desenvolvimento de seis unidades temáticas a serem oportunizadas aos alunos, considerando oito dimensões do conhecimento (experimentação, uso e apropriação, fruição, reflexão sobre a ação, construção de valores, análise, compreensão e protagonismo comunitário).
As seis unidades temáticas indicadas na BNCC para a Educação Física escolar brasileira são: Brincadeiras e Jogos; Esportes; Ginásticas; Danças; Lutas; Práticas corporais de aventura. Brincadeiras e Jogos: correspondem a atividades lúdicas que envolvem movimento físico, geralmente têm um caráter recreativo e social. Podem incluir jogos populares e tradicionais, como queimada, pega-pega, esconde-esconde, entre outros.
Esportes: são práticas corporais pautadas pela comparação de desempenho com regras específicas. Podem ser praticados individualmente ou em equipe e incluem uma ampla variedade de modalidades, como futebol, basquetebol, voleibol, natação, tênis, entre outros.
Ginásticas: referem-se a uma variedade de atividades envolvendo movimentos corporais específicos, muitas vezes executados de forma rítmica e coordenada, com movimentos obrigatórios. As ginásticas podem incluir a ginástica artística (com aparelhos como barras, trave, solo), ginástica rítmica (com fita, bola, arco), ginástica acrobática, entre outras modalidades.
Danças: são expressões artísticas que envolvem movimentos corporais ritmados e coordenados, geralmente acompanhados por música. As danças podem ter diferentes estilos e propósitos, como, por exemplo: dança contemporânea, dança de salão, dança folclórica, dança urbana (hip-hop, breakdance), entre outras.
Lutas: são práticas corporais que envolvem ações centradas no corpo do adversário, visando atingi-lo ou tirá-lo de um espaço determinado. As lutas podem ter origens diversas e incluem uma variedade de estilos e modalidades, tais como: judô, karatê, boxe, taekwondo, jiu-jitsu, entre outras.
Práticas corporais de aventura: dizem respeito às atividades físicas realizadas em ambientes naturais ou desafiadores, envolvendo riscos controlados que estimulam a superação de limites. Incluem atividades como escalada, rapel, trilhas, canoagem, montanhismo, entre outras. Essas categorias abrangem uma ampla gama de práticas corporais que podem ser exploradas na disciplina, contribuindo para o desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo dos alunos.
Ao se considerar a variedade de experiências e aprendizados que podem ser ofertados aos alunos, percebe-se que na maioria das vezes nem todas as unidades temáticas são contempladas nas aulas de EF escolar, ao passo que estudos têm indicado diferentes formas de atuação docente. Em um deles, González (2018) destaca três modos de atuação: práticas tradicionais, abandono docente e práticas inovadoras.
Práticas tradicionais correspondem a uma forma de ministrar as aulas de EF centrada em modalidades esportivas, com foco em repetições de técnicas e padrões de movimentos. Na ótica tradicional, os conteúdos muitas vezes se pautam no denominado quarteto fantástico: futebol, voleibol, basquetebol e handebol (Milani & Darido, 2016) ou quinteto mágico, se o atletismo for incluído (Borges, 2019). Assim, os alunos se restringem a aprender técnicas de poucas modalidades esportivas e desenvolver alguns elementos da aptidão física.
O abandono docente, também conhecido por outras denominações (abandono do trabalho docente, larga bola, aula matada, etc.), refere-se a um posicionamento que visa apenas ocupar os alunos com alguma atividade, sem uma intenção de ensino definida. Como Machado, Bracht, Faria, Moraes, Almeida, & Almeida (2009, p. 132) explicam, “no caso específico da EF, o desinvestimento pedagógico corresponderia àqueles casos em que os professores de EF escolar permanecem em seus postos de trabalho, mas abandonam o compromisso com a qualidade do trabalho docente”. Desse modo, muitas vezes o professor não assume o sentido do seu trabalho vinculado ao aprendizado dos alunos e se torna “indeciso, entediado, inerte, desamparado, fracassado” (Fraga, Dessbesell & Cesaro, 2015, p. 849). Logo, o professor não tem planejamento, organização didática, sistema de avaliação da evolução dos alunos, somente cumprindo horários e funções burocráticas.
Por outro lado, as práticas inovadoras se caracterizam pelo empenho em ensinar aos alunos a pluralidade de temas relacionados à cultura corporal de movimento. Nessa perspectiva, as unidades temáticas indicadas pela BNCC são contempladas, para além do ensino dos esportes. Como González (2018, p. 30) destaca,
[...] atuações docentes caracterizadas pelo empenho de ensinar conteúdo específicos da disciplina (em contraposição à ideia de abandono), junto com rupturas em um ou mais elementos em relação aos modus operandi da tradição, em direção a uma EF pautada pelos parâmetros de um componente curricular.
A atuação docente na perspectiva das práticas inovadoras se vincula a ações pedagógicas que têm um propósito de ensinar, respondendo conscientemente as perguntas estruturantes do ensino: Para que ou por que ensinar?; O que ensinar?; Quando ensinar ou em que sequência ensinar?; Como ensinar?; Para quê, o quê, quando e como avaliar? (González & Bracht, 2012).
Considerando os marcos legais na educação brasileira (Lei de Diretrizes e Bases, BNCC, Referenciais Estaduais e Municipais, etc.) e as características republicanas e democráticas do Brasil, atuações docentes na linha das práticas inovadoras se constituem no modo ideal de trabalho de professores de EF na escola. Contudo, mesmo com o aumento do número de docentes atuando com práticas inovadoras nos últimos anos, o modo tradicional e os casos de abandono docente ainda são maioria nas aulas desse componente curricular (Borges, 2019; Maldonado, Farias, Nogueira, Santos, Meireles, Moreira, & Freire, 2018; Carlan, 2018). Logo, essa constatação remete a necessidade de realização de estudos que busquem identificar os aspectos potencializadores de atuações inovadoras. Afinal, ao entender as características que constituem a atuação de professores inovadores, talvez, seja possível qualificar as formações inicial e continuada visando a diminuição dos casos de aulas nas perspectivas tradicionais e abandono docente. Neste contexto, o presente estudo tem como objetivo caracterizar a atuação de um professor de Educação Física que atua com práticas inovadoras na escola.
Procedimentos metodológicos
Essa investigação está pautada em uma abordagem qualitativa, a qual, segundo Turato (2005), trabalha com valores, crenças, representações, hábitos, atitudes e opiniões, buscando um entendimento mais profundo de fatos na tentativa de compreender suas subjetividades. Especificamente, trata-se de um estudo de caso. Segundo Yin (2005, p. 32), o estudo de caso “é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos”.
O sujeito colaborador desta pesquisa é um professor identificado como atuação inovadora. Sua indicação foi realizada por uma docente do Curso de formação inicial em EF de uma Universidade Federal situada no Rio Grande do Sul, que conhece o trabalho do referido professor, a quem tratamos pelo nome fictício de Marcos. Cabe mencionar que o participante do estudo autorizou a divulgação dos resultados para fins de pesquisa acadêmica, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, ao passo que sua identidade não aparece em nenhum momento do texto.
Como características pessoais esse professor possui 36 anos de idade, há nove anos é formado em Licenciatura em EF, possui especialização em EF escolar, tem mestrado em EF e atualmente cursa doutorado na área da Educação em uma Universidade Federal situada no Sul do Brasil. Profissionalmente, há nove anos atua como docente concursado em uma escola pública estadual no interior do Rio Grande do Sul. Marcos se caracteriza por ser uma pessoa simples, inteligente, autônoma, dinâmica, bem-humorada, humilde, esforçada e resiliente, segundo ele mesmo descreve.
Os instrumentos utilizados para o levantamento dos dados neste estudo foram, nessa ordem: a) observações de 20 aulas do professor, transcritas em um diário de campo, com foco na descrição detalhada do contexto das aulas; b) documentos normativos da universidade na qual Marcos cursou a formação inicial; c) documentos normativos da escola na qual Marcos atua como docente de EF; d) entrevista semiestruturada, realizada após as observações das aulas.
Análise dos dados e discussão dos resultados
A apreciação dos documentos, do diário de campo e da transcrição da entrevista ocorreu por meio da análise de conteúdo proposta por Gomes (2012). Com isso, realizamos a leitura das informações destacando termos e manifestações que se relacionavam ao objetivo do estudo. Posteriormente, classificamos as palavras e frases mais frequentes, identificadas e elencadas por categorização semântica, permitindo a elaboração de “uma síntese interpretativa através de uma redação que pudesse dialogar com os temas com objetivos e questões e pressupostos da pesquisa” (Gomes, 2012, p. 92). Esse processo, levou-nos a duas temáticas: a) O percurso formativo do professor; b) As práticas pedagógicas do professor.
Ao analisar o percurso formativo do docente, identificamos que Marcos ingressou no curso de Licenciatura em EF em 2007, sendo que no segundo semestre começou a participar de um Grupo de Pesquisa na linha de Estudos Epistemológicos e Didáticos em EF Escolar. Posteriormente, durante sua formação inicial, participou de Projetos de Pesquisa (Ginástica Escolar: Possibilidade Superadora para o Plano da Cultura Corporal; Linha de Estudos Epistemológicos e didáticos em EF; Diagnóstico da Expansão do Ensino Superior através do REUNI e os impactos na formação em EF do CEFD)e de Extensão (Idoso, Natação e Saúde; Experienciando a Ginástica na Escola enquanto Possibilidade Superadora no Plano da Cultura Corporal; Cultura Esportiva da Escola).
Pontualmente, Marcos se envolveu com a política estudantil fazendo parte da Executiva Nacional de Estudantes de EF e do Diretório Acadêmico. O Movimento Estudantil, segundo seu relato: “ajudou muito na minha formação enquanto professor” (Entrevista). Assim, para além das disciplinas obrigatórias da formação inicial, Marcos se inteirou de saberes que não constavam na grade curricular do seu curso, estudando epistemologia, história, filosofia, relações de poder e classes, mundo do trabalho, políticas públicas, entre outros. Essa amplitude na formação inicial, forjou a postura crítica de Marcos que é uma das características constituintes da sua atuação profissional. Como revelou na entrevista:
[...] a formação me fez criar uma visão crítica e meu envolvimento político estudantil, me fez travar diversas lutas dentro do CEFD e ter uma visão crítica também ao curso, mas ao mesmo tempo o curso era muito mais do que eu esperava.
Ao longo de sua graduação Marcos se empenhou na ampliação de seus conhecimentos, reconhecendo que a atividade profissional apresenta complexidades que exigem uma amplitude maior de saberes, difíceis de serem contemplados apenas na graduação. Como ele afirma:
10% do que eu aprendi no curso eu utilizo hoje, 90% eu aprendi com o movimento estudantil, com a LEDEF, indo para congressos, indo para espaços de formação, fazendo cursos fora, justamente porque o curso não conseguiu se articular, era cada um no seu mundo. E muita coisa se perde porque tu não vais utilizando, aí quando tu precisas, tu nem lembra mais, aí tem que recorrer à literatura (Entrevista).
Considerando a fragilidade de sua formação inicial, Marcos buscou uma especialização em EF escolar que lhe permitiu perceber a importância das relações estabelecidas entre a formação continuada e seu trabalho como professor iniciante. Contudo, ao terminar a especialização, começou o curso de mestrado entendo que o mesmo lhe propiciou uma vinculação efetiva entre a “teoria e prática” que a sua graduação não conseguiu fazer. Conforme ele destaca:
A formação continuada foi para mim crucial, a especialização em EF escolar e o mestrado em EF. Eu tive o privilégio de fazer trabalhando, então sempre quando eu lia um texto, conseguia refletir com meu dia a dia e muitas vezes eu vejo que vinha dar aula para a graduação em uma docência orientada, quanto mais tempo eu ficava lá na escola dando aula, melhor minhas aulas ficavam aqui (Entrevista).
Assim, cursar a pós-graduação ao mesmo tempo que atuava na escola foi percebido por Marcos como uma possibilidade efetiva de consolidar a relação “teoria e prática”, de modo que o vínculo entre escola e universidade trouxe um enriquecimento de sua ação docente, mostrando conexões estabelecidas na práxis, qualificando-o enquanto professor. Marcos sempre buscou estar em constantes atualizações e atualmente está cursando seu doutorado em educação. Nessa linha, a formação de sua consciência crítica ocorreu, em grande parte, no envolvimento político, formativo e profissional entrelaçado ao contexto real de “ser professor”. Este engajamento, permitiu-lhe romper com os modelos tradicionais de ensino, criando uma visão crítica sobre educação e a EF.
Esse percurso influenciou a compreensão de Marcos sobre a EF, uma vez que o professor manifesta ser apaixonado pelo componente curricular. Para ele, a disciplina abrange uma vasta amplitude de conhecimentos, tendo enorme potencial de contribuição com a formação humana, auxiliando os estudantes a (re)conhecer e vivenciar manifestações corporais da EF, inclusive, com caráter multidisciplinar. Como ele explica,
a EF é uma área do conhecimento multidisciplinar, regada por todas as ciências mães e por isso ela é apaixonante. Eu que adoro ficar versando em várias áreas, a EF é perfeita, porque eu não preciso me limitar a uma coisa só na minha vida. Ela estuda uma coisa que é muito rica, a cultura corporal, todo esse conhecimento historicamente produzido pela humanidade que está dentro dessa esfera da linguagem corporal, expressão corporal e que produziu e continua produzindo inúmeras formas de manifestação da humanidade. Então, ela é muito importante na formação integral do ser humano, para ele compreender essa totalidade dele, que desde a marcha até quando vai dançar em uma boate tem toda uma construção histórica e que ele faz parte desse todo. Então, não ter EF é você privar a formação da totalidade desse ser humano (Entrevista).
A percepção do potencial da EF escolar enquanto componente curricular que pode contribuir com a formação humana dos alunos, inclusive com possibilidades multidisciplinares, o que representa um elemento que fortalece a atuação inovadora de Marcos. Ao identificar a EF como um componente fundamental na construção da totalidade do ser humano a partir da pluralidade de temas da cultura corporal de movimento, Marcos confere um sentido e satisfação ao seu cotidiano laboral.
Ao analisar as práticas pedagógicas do professor, constatamos que Marcos realiza o que chama de “pré-planejamento”, consistindo na participação dos alunos no processo de definição das temáticas. Para isso, o professor considera o conhecimento prévio dos alunos que ajudam a construir, coletivamente, a sequência dos conteúdos a serem desenvolvidos nas aulas. Na forma de pensar do professor, os estudantes precisam se reconhecer como parte da formação, para se sentirem sujeitos na construção dos conhecimentos, como ele destaca: “Eu procuro fazer um planejamento participativo, conversar com eles, mostrar os conteúdos, qual é a ordem que a gente vai trabalhar. A gente participa, conversa, eu tento seguir esse tipo de coerência na metodologia e na abordagem” (Entrevista);
Eu faço um pré-planejamento antes de começar as aulas, para poder fazer o planejamento coletivo. Por que eu faço planejamento coletivo? Para o aluno se sentir sujeito da formação e não objeto da formação. Eu tenho cinco conteúdos que eu tenho que trabalhar: dança, lutas e artes marciais, jogos e brincadeiras, ginástica e esporte, aí a gente planeja. Como a grande maioria das vezes, eu dava aula para 3º ano do Ensino Médio, eu tinha que trabalhar todos os conteúdos para fazer uma grande revisão e até porque muitos desses conteúdos eles não tiveram até o 3º ano, então eu faço esse pré-planejamento (Entrevista).
Nessa lógica, uma das características do professor é considerar o que os estudantes já conhecem, ou seja, a história, a vivência e a experiência de cada aluno, conferindo importância a elas e a partir disso, formulando seu trabalho pedagógico. Além disso, quando julga necessário, vai até a casa dos estudantes para conhecer as suas famílias, entender o contexto ao qual cada estudante está inserido. Segundo Marcos, a história de vida se torna fundamental para o ensino ter um sentido para o aluno. Como ele relata:
Vou à casa do aluno conversar com os pais, ver como está aquele aluno. Eu vou ver a realidade do meu aluno, eu vou na casa deles e converso, eu faço além daquilo que é necessário, necessário não, mínimo, porque isso é necessário (Entrevista).
Para Marcos, considerar essas experiências, e a partir delas, pensar no processo de construção de conhecimento é primordial para o mesmo ser efetivo. Neste aspecto, aproxima-se das ideias de Freire (1996), quando o autor indica que qualquer aluno, ao entrar em uma escola, deve ser tratado como alguém que já possui uma bagagem de experiências e determinados valores construídos ao longo de sua vivência. No entanto, para valorizar as mesmas, é preciso entender o que passa na vida pessoal, suas dificuldades e desafios. É isso que Marcos busca fazer enquanto professor para atender as particularidades dos alunos.
Ao analisar sua prática pedagógica, Marcos se identifica com a abordagem que denomina o campo de conhecimento da EF como cultura corporal, considerando em suas aulas os jogos, os esportes, a capoeira, as ginásticas e as danças, tratando pedagogicamente a expressão corporal como linguagem. O planejamento de Marcos ocorre gradualmente, de acordo com o feedback que a turma fornece a cada aula, de modo, que ao atingir o objetivo proposto, ele prossegue para o próximo conteúdo. Nesse sentido, o professor diz que durante as aulas de EF – como trabalha em um viés crítico, trazendo a complexidade dos conteúdos –, muitos temas transversais surgem, como questões de gênero, sexismo, pluralidade cultural, meio ambiente, trabalho e consumo, orientação sexual e saúde. Marcos enfrenta os temas surgidos, propondo debates sobre como esses assuntos perpassam os conteúdos da disciplina, com o objetivo de ampliar a conscientização dos estudantes.
Marcos também menciona utilizar a abordagem crítico-superadora (Coletivo de autores, 2009) para fundamentar seu planejamento, justificando que optou por ela devido às convicções de sua visão de mundo e concepções educativas. Como ele explica:
utilizo a abordagem crítico-superadora, porque ela parte de uma concepção de ser humano e sociedade que é a qual eu concordo e é fundamentada pela pedagogia histórico-crítica, principalmente pela figura do Demerval Saviani, que é permeado pelo materialismo histórico dialético. Então, a visão de mundo, na qual a gente vive, em uma sociedade de classes que a gente está, em um sistema e modo de produção econômica que é autodestrutiva da natureza e da própria natureza humana, nos afasta da nossa ontologia enquanto seres sociais cada vez mais. O avanço tecnológico é bom para diversas coisas, só que também nos afasta cada vez mais de nossas relações sociais, por exemplo, você leva mais trabalho para casa, você aumenta sua jornada de trabalho sem nem ver de maneira a burlar a lei, porque você trabalha mais quando tem whatsapp, tendo grupo (Entrevista).
No que se refere a metodologia de ensino e como organiza os planos de aula, Marcos explica que estrutura de acordo com os cinco passos de Saviani, detalhado na sequência, cada momento da aula:
Eu planejo sempre dentro dos cinco passos de Saviani, eu parto da prática social que é o que eu tenho de comum ali com os alunos que é o conteúdo, só que claro esses passos na aula eles não se demonstram uma coisa depois outra, acontece em todo momento em conjunto. Então, tem a problematização que no planejamento eu coloco perguntas e desafios que vão aparecer no decorrer da aula, tu pode observar que tinha desafios e eu questionava toda aula, desafio e questionamento, desafio e questionamento toda aula problematizando. Depois disso, a instrumentalização é o que eu vou fazer de fato na aula para que eles se instrumentalizem daquele conteúdo. E aí, a catarse que é muito vinculada ao objetivo que é onde eu quero que eles cheguem e a prática social enfim é o conteúdo só chegando a outros níveis de conhecimentos produzidos (Entrevista).
Esta forma de organização metodológica, começa pela prática social, momento inicial da aula que permite a escuta dos conhecimentos que os estudantes possuem acerca das experiências, memórias e saberes sobre o conteúdo. Após, realiza a problematização em formas de perguntas, buscando estabelecer relações com o cotidiano, por meio de rodas de conversa, como podemos identificar nas observações de campo. Segundo Gasparin e Petenucci (2008, p. 13), esse momento da problematização é importante pelo fato de que: “os alunos percebem este conteúdo dentro de um contexto, partindo dos seus conhecimentos espontâneos chegando aos conhecimentos científicos, estabelecendo conexões entre os dois, enriquecendo-os”.
O professor Marcos, inicia todas as aulas dessa forma considerando que esse é o momento de valorizar os conhecimentos que os alunos já possuem sobre o conteúdo e poder, a partir de um diagnóstico, ampliar o repertório de conhecimentos e questionar sobre as possibilidades de vivenciarem determinado conteúdo fora do ambiente escolar, em sua casa, seu bairro, nas horas de lazer. Segue o exemplo de uma problematização, registrada em diário de campo:
Em um primeiro momento, o professor Marcos fala sobre o objetivo da aula, recapitulando os aspectos históricos do andar e a sua evolução ao longo dos anos, para então introduzir a relação desses movimentos básicos do cotidiano com a ginástica. Durante sua fala, indaga os alunos, como por exemplo: por que as formas de deslocamento mudaram? Quais vocês conhecem? A cada resposta dos estudantes, ele fazia outra pergunta, partindo do conhecimento dos alunos, para que eles refletissem sobre a historicidade do movimento e os espaços existentes na comunidade para tais deslocamentos, como as próprias variações que, por exemplo, morar em uma rua com buracos, permite nos dias de chuva, a variação entre o caminhar e o saltar. Reforça as diferentes pavimentações públicas, entre os bairros relatados, trazendo a diferença de investimento, de acordo com a região da cidade, também em relação ao acesso dos alunos aos espaços públicos para o lazer (Diário de campo).
A aposta de Marcos é de que trabalhar os conteúdos em uma perspectiva dialética, favorece a formação dos alunos como sujeitos históricos. De acordo com Coletivo de autores (2009, p. 35), é importante “permite-lhe, portanto, compreender como o conhecimento foi produzido historicamente pela humanidade e o seu papel na história dessa produção”. Assim, o professor trabalha com os conteúdos historicamente construídos, considerando o contexto social. Por exemplo, observamos e registramos no diário de campo que ao ensinar os conceitos das lutas, os movimentos, técnicas e táticas, Marcos reflete sobre o contexto histórico e da capoeira e o percurso dos negros na sociedade brasileira.
No que se refere ao quarto passo, a catarse, Marcos também possibilita um momento de avaliação dos alunos e de suas aulas para, coletivamente, poderem perceber o que pode ser melhorado. Nesse movimento, o professor consegue identificar a prática social final, que é o avanço demonstrado entre a problematização inicial e a final, transitando e incorporando os conhecimentos que aprenderam durante as aulas. Marcos explica o processo de avaliação da seguinte forma:
A avaliação é constante, tanto que tu podes observar que parte dos questionamentos muitas vezes era: “estão entendendo?”. A avaliação estava acontecendo ali, em todo momento, dá para seguir mais ou então ficar mais um pouco no conteúdo. Muitas vezes só com o olhar dá para ir para frente ou vou ter que desacelerar! Vou ter que readaptar porque não está rolando o que eu planejei e no final a avaliação coletiva, daí eu pedia para eles me avaliarem. Acho que foram raras as aulas que eu não consegui fazer, mas sempre destinava um período para a gente avaliar a aula juntos, pensar juntos e ser avaliado e a turma pudesse fazer uma autocrítica da própria turma, essa avaliação coletiva (Entrevista).
Além de realizar esse procedimento em cada aula, atribuindo nele, uma avaliação processual dos alunos e do seu próprio trabalho, Marcos utiliza como um método avaliativo ao final de cada conteúdo, um fechamento. Nesse fechamento, ele propõe um desafio para os estudantes, no sentido de dar autonomia para a turma se organizar e resolver juntos a instigação, como relata nesse exemplo:
A avaliação no sentido de eu ver se eles se apropriaram daquele conteúdo. Para que eles entendam que dou uma autonomia para eles, para eles compreenderem que podem utilizar isso no dia a dia, para dar uma razão social no conteúdo que eu estou trabalhando, porque muitas vezes eles perguntam: mas porque eu tenho que aprender isso? Em qualquer disciplina eles perguntam isso e principalmente na EF quando tu não dá só a bola, então eles têm que entenderem que podem trabalhar com aquilo na realidade deles e daí fica muito mais fácil de trabalhar. Primeiro eles são sujeitos de sua formação, já fica mais fácil. Segundo, eles compreenderem a razão social do conteúdo que tu está trabalhando. Por exemplo, com o terceiro ano, neste ano, eu trabalhei com o conteúdo de jogos e brincadeiras, eu fiz eles darem aula para os anos iniciais, com jogos e brincadeiras. Eles entenderam a importância daquilo para a vida deles, tem um caráter avaliativo para eu entender se eles se apropriaram do conteúdo, mas principalmente pela autonomia frente ao conteúdo, entender a razão social desse conteúdo, isso eu acho muito importante de cada conteúdo fazer esse fechamento (Entrevista).
Ao adotar uma abordagem qualitativa na avaliação dos estudantes, o professor pode identificar dificuldades específicas e desenvolver estratégias pedagógicas adequadas para cada aluno. Além disso, essa forma de avaliação permite ao docente oferecer feedback personalizado aos estudantes sobre seu desempenho e progresso ao longo das aulas. Nesse sentido, Marcos valoriza não somente os resultados finais alcançados pelos estudantes em termos técnicos ou teóricos, mas também enfatiza aspectos comportamentais relevantes para o desenvolvimento integral dos alunos. Um exemplo disso, foi constatado durante as observações das aulas de ginástica, em uma perspectiva histórica cultural, abrangendo os temas transversais, vivências corporais e reflexões críticas. O professor partiu da importância da criatividade, de se estar aberto para o novo, de estabelecer relações de confiança entre os colegas. Por meio de um desafio, pediu para todos responderem corporalmente como poderiam ver o mundo de outra forma. Após, os alunos realizarem figuras corporais e relatarem o que muda ao ver o mundo por outro ângulo, ele questionou:
[...] a partir do que acreditamos podemos mudar o mundo, alguém nos fez acreditar que existem norte e sul, mas, por exemplo, quem está no espaço pode ver ao contrário, por que precisamos ver o mundo da mesma forma sempre? Por que os nossos corpos não podem ser explorados e descobrir coisas novas? (Diário de campo).
As figuras criadas pela turma durante as vivências chamavam atenção, inclusive, da comunidade escolar, pois algumas atividades eram trabalhadas na quadra que que pode ser visualizada por quem passa ao lado da escola. A maioria das pessoas parava para assistir as dinâmicas que eram diversificadas de acordo com cada fundamento da ginástica, desde o equilíbrio até realizar um salto mortal.
Nessa lógica, o professor trabalha promovendo debates com os alunos, permitindo que estes tenham um outro olhar para a EF, sensibilizando-os por meio da disciplina para que se apropriem de novas formas de manifestações e expressões da cultura corporal de movimento. Dessa forma, fugindo de um ensino apenas centrado em repetições técnicas, Marcos valoriza a criatividade, a percepção de mundo de cada aluno e, a partir das experiências pessoais, permite ampliar os conhecimentos. Esse movimento empreendido pelo professor fica evidente no exemplo que segue, registrado em uma aula sobre a história da ginástica moderna:
O professor introduz a ginástica moderna. Faz a relação dos aparelhos da academia com a história dos movimentos, fala da importância de saber o que acontece no dia a dia. Diz que tudo tem uma historicidade e que a gente precisa compreendê-la. Fala que as práticas corporais se transformam com o modo como cada sociedade se organiza. Ressalta aos alunos, que a coisa mais importante da aula é os alunos conseguirem pensar (Diário de campo).
Essa proposição de reflexão é extremamente necessária nas aulas, uma vez que muitos professores, com muita frequência, não oferecem aos alunos espaços de reflexões e tantos outros acabam por diminuir as curiosidades que surgem, dado a premência de “vencer os conteúdos”. Marcos procura tornar o assunto interessante e atrativo, relacionado com a realidade dos alunos, pois, o pensar, exige conhecer, refletir, criar possibilidades de se posicionar frente ao assunto. Como Santos (2008, p. 65) defende, uma das maneiras de fazer o aluno pensar é “provocar a sede” de aprender, problematizando o conteúdo, tornando-o interessante é não tirar o sabor da descoberta dando respostas prontas. Nessa linha, também registramos no diário de campo:
O professor fala que a escola é um lugar que poda muito a criatividade das crianças e que elas são produtoras de uma cultura gigantesca de conhecimentos. Diz que a escola teria que ser diferente, potencializar a criatividade individual, porém muito facilmente se resume no ‘não faz isso, não, não, não’. Acaba que os alunos têm muita dificuldade em criar, a sociedade gosta de gente previsível (Diário de campo).
As práticas pedagógicas de Marcos utilizam questionamentos, desafios, permitindo ao aluno espaço para refletir sobre o conteúdo e relacionar com o mundo, rompendo paradigmas tradicionais de ensino. O professor defende que, como docentes de EF, é preciso esclarecer as questões fisiológicas, os alunos têm o direito de saber diferenciar os tipos de exercícios que estão fazendo, quais fontes de energia que usam durante as atividades e a importância, por exemplo, que ingerir água tem para o corpo manter um bom funcionamento. Segundo Bracht (2018, p. 46), esse tipo de ensino pode ser caracterizado como inovador:
[...] inovar os conteúdos da EF, ampliando-os para além dos tradicionais esportes, tematizando outras manifestações da cultura corporal de movimento, além de considerar como conteúdo de aula os aspectos ligados ao conhecimento sobre a cultura corporal de movimento, como conhecimentos fisiológicos, antropológicos, sociológicos, etc. tratando-os contextualizadamente, portanto, articulando teoria e prática.
Além disso, o professor Marcos estabelecia uma ralação dos entre os conteúdos trabalhados e a mídia. Um exemplo ocorreu durante o trabalho com os saltos na ginástica, em que cada aluno tinha que criar um salto e nomeá-lo com o nome do próprio estudante. Assim como a ginasta Daiane dos Santos executou o salto Duplo Twist Carpado, que depois passou a se chamar “dos Santos” em homenagem à brasileira, os alunos tentaram ser criativos para terem um salto com seus nomes. De acordo com Marcos, essa é uma forma de dar autonomia para os alunos serem criativos e expressarem movimentos de sua autoria, para que eles também entendam como funcionam as denominações esportivas apresentadas pela mídia. Segundo González (2018, p. 41), este tipo de trabalho é importante de modo que:
Essa deveria ser uma preocupação central daqueles que enxergam na Educação Básica de qualidade uma ferramenta fundamental para propiciar aos estudantes o acesso a conhecimentos e experiências que lhes possibilitem desenvolver a autonomia, a codeterminação e a solidariedade, bem como os saberes necessários para enfrentar os desafios na construção de uma sociedade democrática.
Em conversa com Marcos, sobre fatos que ocorreram durante sua atuação na escola e que marcaram sua trajetória profissional, ele relata que um deles ocorreu ao incentivar que uma aluna com deficiência participasse das aulas de Educação Física. Pelo fato de esta experiência ter marcado positivamente as ações pedagógicas de Marcos, apresentamos o relato do professor:
A Carlinha é uma menina com deficiência múltipla e na época era de clubes na escola. Eu vivia falando da importância de fazer EF e as pessoas com necessidades especiais na escola não faziam. Os pais levavam atestados e eu justificava o quanto era importante, que poderia ajudar e trabalhava junto com o setor da Educação Especial. A Carlinha não conseguia ficar de pé, em um pé só, não podia mascar chiclete e andar, ela tinha vinte e poucos anos e estava no segundo ano. Muitas vezes eu ia nas consultas com os familiares, tentava convencer... Até que um dia eu convenci que a Carlinha fosse participasse das aulas de Educação Física. Quando eu consegui levar ela para a EF e ela foi e foi e foi e foi... No final do ano, depois de quatro meses trabalhando com a Carlinha, duas vezes na semana, a gente apresentou uma coreografia na qual ela foi pivô de uma pirâmide. Então ela estava no topo de uma pirâmide humana, com um sorriso de orelha a orelha e aquilo lá me marcou muito (Entrevista).
Este comprometimento e dedicação de Marcos ao buscar incluir a todos os alunos nas aulas de EF, é uma caraterística importante de professores que trabalham com práticas inovadoras. Ações como essa relatada por Marcos, são fundamentais na formação dos estudantes e no progresso da sociedade mais justa e igualitária. Como os trechos apresentados mostram, a influência deste professor ia além da sala de aula, impactando no desenvolvimento acadêmico, emocional e social dos alunos. Durante suas aulas, ficou claro que Marcos conseguia identificar as necessidades individuais dos seus alunos e adaptar seu método de ensino para atendê-las, reconhecendo cada aluno é único, com habilidades diferentes e ritmos distintos de aprendizado.
Em síntese, a atuação de Marcos com práticas inovadoras nas aulas de Educação Física escolar se caracteriza a partir de uma formação densa, com atividades de pesquisa, extensão e movimento estudantil para além dos componentes curriculares que teve na graduação. Fundamentalmente, sua dedicação incansável à educação passa pelo reconhecimento do direito de aprendizagem dos estudantes, que é estruturante em sociedades republicanas e democráticas. Esse ponto é semelhante ao encontrado por Borges (2019), quando o autor identificou que os professores participantes de uma formação continuada indicaram que o estudo sobre o direito dos alunos em aprender a pluralidade de temas da cultura corporal de movimento foi o principal fator que proporcionou uma mudança na forma de compreender a EF escolar.
Conclusões
Refletindo sobre as características de inovação do professor investigado, destacamos seu envolvimento com o processo formativo, desde a formação inicial à formação continuada, com a participação em grupos de estudo, pesquisa, extensão, em políticas educacionais, congressos, eventos, mestrado e doutorado, entre outros. Esses momentos construíram sua identidade profissional, assim como, suas concepções sobre educação, EF e sociedade, constituindo uma visão crítica sobre o mundo.
No que se refere à formação continuada, Marcos destaca a importância das relações estabelecidas, especialmente nas docências orientadas durante o mestrado na EF, no qual conseguiu construir conexões com a sua prática pedagógica, relatando que a cada docência orientada, suas aulas na escola ficavam melhores. Assim, essas trocas de experiências em sua formação continuada e em serviço, qualificaram seu trabalho pedagógico na escola.
Quanto às suas concepções pedagógicas voltadas à formação humana, Marcos reconhece na educação um meio pelo qual as pessoas têm a oportunidade de transformar a comunidade, a sociedade e o mundo. As sustentações teóricas que ele construiu, algo raro em um universo de modismos superficiais, o auxiliavam na elaboração de seu planejamento e metodologia de ensino, fazendo a aproximação entre as teorias e sua prática. Suas ações inovadoras, que são marcadas por momentos de diálogos, escutas e problematizações, tornam suas aulas direcionadas a realidade dos alunos, sem deixar de trabalhar aspectos universais do conhecimento científico e sem ignorar a especificidade da EF, ampliando o repertório de saberes e vivências dos estudantes de uma forma crítica.
Podemos ainda considerar como características inovadoras de Marcos, a coerência entre seu discurso e sua atuação pedagógica, da mesma forma, o processo avaliativo que envolve o aluno na construção dos conhecimentos, sendo que a avaliação ao final de cada aula também serve como uma reflexão sobre sua prática, no sentido de repensar possibilidades de qualificar continuamente seu trabalho. Ressaltamos que nas dinâmicas realizadas em sala, Marcos trabalha na dimensão da cultura corporal de movimento, alinhado ao que a BNCC indica, rompendo com os paradigmas de movimentos repetitivos e estereotipados, propondo aos estudantes uma práxis que se volta à criatividade, autonomia e consciência crítica dos conteúdos.
Concluímos que inovar exige dos professores, em primeiro lugar, estar “eternamente” na condição de estudante, no sentido de seres inacabados e que o conhecimento e os contextos mudam continuamente. Com as práticas pedagógicas de Marcos, se fortalece o entendimento de que a inovação é possível e que ela pode promover impactos importantes na formação dos estudantes.
Apostamos na dialética que inspira o sujeito desta pesquisa, ou seja, uma retroalimentação incessante da prática e da teoria sem um ponto de chegada, mas capaz de promover ricos percursos. Quem sabe este trabalho possa inspirar “outros Marcos” e contribuir com novos estudos que buscam reconhecer e destacar os professores que atuam com práticas inovadoras na EF escolar.
Declaración de autorias
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Recepción: 24 Marzo 2024
Aprobación: 29 Septiembre 2024
Publicación: 01 Octubre 2024